10.10.05

Só eu vi?

Dia de festa. Em cada canto da casa, em cada cômodo, havia uma bacia de plástico com partes do corpo de alguém - intestinos, estômago, rins. Minha amiga, toda limpa e arrumada, passeava por aquela imundície como se estivesse em um jardim. E eu fazendo tempestade em copo d'água...

14.9.05

Supernova na constelação de Peixes

Isto não é um sonho: cientistas de várias partes do mundo anunciaram no último dia 12 a descorberta da explosão mais antiga - e portando mais distante - já observada no Universo. É o grito de morte de uma estrela, lançado uns 12,8 bilhões de anos atrás. Isso é "apenas" 900 milhões de anos depois do nascimento do próprio Universo.

Essa observação inaugura uma nova fase nos estudos cosmológicos, em que cientistas pretendem destrinchar a formação das primeiras estrelas. No olho do furacão, estão os enigmáticos GRBs (disparos de raios gama, na sigla em inglês). Um disparo foi detectado no último dia 4 e imediatamente associado ao colapso de uma estrela, situada na constelação de Peixes.

Há 12,8 bilhões de anos, houve um supernova na constelação de Peixes.

15.8.05

Pretérito perfeito

Sandalha de couro, meias finas floridas, saia vermelha, blusa de crochê. Foi assim que ela se vestiu naquele dia fatídico, com a ajuda de seu personal stilist. E assim ela iria ao trabalho, desfilaria esplendorosa entre ternos, terninhos e ternuras corporativas. Vestida como as mais requintadas sertanejas, recolheria seu manual de redação e seu lápis de madeira de reflorestamento, nada mais. O resto, ficaria lá, no fundo dos arquivos de metal. Não esqueceria de rodar a saia vermelha ao sair e limpar sua sandalha de couro no último tapete que deixasse para trás.

12.8.05

O casamento de Anna

Corina estava pálida e insossa quando recebeu a notícia trazida com entusiasmo por Anna. Manteve-se sem reação, mesmo quando Anna beijou-lhe a testa. Não havia o que comemorar.

24.7.05

O dia em que nevou na praia dela


No dia em que nevou na praia dela, seu desafio era escolher o melhor biquini. Além de escolher o melhor biquini, chegar a tempo à outra ponta da praia. A tempo de encontrá-lo, cercado de gente boa.

Ela estava mal-humorada, pois mal conseguia escolher o biquini. Vestiu uma peça vermelha e florida, deu um nó cego na amarração, agora não havia mais jeito. Saiu em direção à praia, imaginando o que encontraria lá, na outra ponta.

Mas ainda precisa escolher um bom par de óculos escuros para competir com a sua irmã, que também tinha como desafio chegar à outra ponta da praia, e podia encontrá-lo antes, era um risco. Passou por um vendedor ambulante, mas decidiu ficar com o seus próprios óculos. E se foi.

8.7.05

Information Society

Todos dançavam Information Society, em cima de um palco. Uma estranha chamou-me de Rudshie, e isso me soou bem. Mas de onde ela me conhecia?? Tudo bem, passou o estranhamento... Comecei a me sentir leve como Rudshie, encarnei a "R. Rudshie". Até que algo começou a me incomodar. Saí a procura do meu amante... Era isso, ele não estava ali! Ele não estava em canto algum. Perdi-me então ao som de Information Society.

26.6.05

Sala de estar

O carro de luxo passou por uma favela e entrou em uma garagem escondida. Ela estava naquele carro por acaso, ao lado de uma mulher e dois homens. As mulheres foram encaminadas à área de serviço da casa. Os homens foram direto para a sala de estar, onde havia uma festa. Elas não sabiam o que fazer ali, na área de serviço, entre os criados. Suas roupas eram simples, então os criados trouxeram algumas jóias para incrementá-las. Os homens apareceram para buscá-las, só assim elas puderam ter acesso à grande festa.

18.6.05

No meio da avenida

Contemplava o quintal da casa da avó com outros olhos. O cenário que antes parecia assustador agora não passava de escuridão inofensiva. Mas a tranqüilidade daquele olhar logo foi interrompida por uma rajada de raios e trovões. Uma grande onda de energia iluminou todo o céu. Em poucos minutos, os estrondos se aproximaram. Correu para a varanda da casa, onde pessoas pediam abrigo. Deixou-as entrar, mas sua mãe insistia em ficar lá fora, ela queria conferir o que estava acontecendo no meio da avenida. Um raio atingira um automóvel, havia um casal, morto. Apareceu o filho deles. O menino cavou duas covas ali mesmo, no meio da avenida, e enterrou os pais, sem derramar uma lágrima.

16.6.05

Emergência?

O elevador não passava confiança. Rangia, tremia, descia estranho. Entre um andar e outro, a porta se abriu, depois a máquina entrou em queda livre. Somente quando chegou no subsolo do prédio, ela resolveu apertar o botão de emergência.

Na pele

Tinha manchas brancas por toda a perna. Por que teriam surgido ali? Já não bastavam as do rosto, nos cantos da boca? Indignou-se, mas procurou se acalmar, nada podia fazer, a não ser ficar tranqüila! No fim das contas, seria bom colocar todas aquelas manchas para fora.

8.6.05

Ferida









Tudo bem, era uma parede velha e mofada... Mas à medida que ele descascava as camadas de tinta, ela ficava cada vez mais aflita. Dizia: "não faça isso!". Ele não parava, sua unha atingia uma camada após a outra.

26.5.05

Poltrona de couro branco

Fugiu de tubarões bravamente. Até encontrar um pier, e por ele correu. Do outro lado, havia mais água. Há oito metros de profundidade, um barco. Pessoas mergulhavam de cabeça para chegar até o barco, outras pulavam de pé. Queria ir até lá, mas não sabia se seria seguro pular de cabeça. Enfim, pulou, sei lá de que jeito. Já no barco, recebeu um aparelho para respiração, assim como as pessoas ao seu redor. Seu avô estava lá também, de roupa e tudo, sentado em uma poltrona velha de couro branco. Fechou os olhos, enfrentando a resistência da água. Quando os abriu, já estava fora da água, ao lado do seu avô todo molhado, trêmulo de frio. Pediu que o avô vestisse algo seco.

19.5.05

Brad & Tom

Havia várias pessoas dançando, e eu fotograva tudo. Andando pelo descampado, encontrei meus pais em cima de um muro, vestidos de preto, ao lado de Tom & Brad. Queria ser fotografada em cima do muro com eles. Tom tomou-me a câmara, que virou uma TV. Subi no muro e Tom enfiou-se atrás da TV para nos fotografar. Enquanto ele se preparava, eu trocava uma idéia com Brad, que segurava um maço de cigarros para lá de estranho. Era uma caixa toda de metal, cheia de aberturas. Eu não sabia como abri-la, me senti boba. Apresentei minha irmã a Brad e disse que ele era real. Ele já devia estar de saco cheio de tudo, então fui sentar ao lado da minha mãe, que fumava feito uma caipora. Seus dentes estavam amarelos. Ela mantinha as pernas bem abertas. Isso me envergonhou. Tom continuava com sua cabeça dentro da TV, como se a TV fosse mesmo uma daquelas câmaras antigas. O que eu podia fazer?