26.10.06

Intertextos

Estava lendo a definição da palavra "sonho":

"so.nho sm (lat somniu) 1. Imaginação sem fundamento, seqüência de idéias vãs e incoerentes, às quais o espírito se entrega; devaneio, fantasia, ilusão, utopia."

... e me recordei da passagem de um livro:

"Chamou-a Utopia, palavra grega cujo significado é não existe tal lugar" (Quevedo, citado por BORGES, Jorge Luis. "Utopia de um homem que está cansado". In O Livro de Areia. São Paulo: Globo, 2001).

25.10.06

Apenas um sonho

Clara acordou cansada de seu sonho. Tanta expectativa, mas nenhuma realização... Havia sonhado com o sonho de ir embora. Mas continuava ali, no jardim sem flores da sua casa. A realidade é que precisava terminar de regar a terra estéril ao seu redor.

O jogo das cores

Clara adormeceu e sonhou.

Sonhou que jogava o jogo das cores com suas amigas, e o condutor, aquele que daria as cartas, era nada menos que o homem mais bonito do mundo.

Clara percebeu que, se tivesse sucesso no jogo, poderia fugir dali com o moço. Então ficou atenta às perguntas lançadas às jogadoras. “Será que o amarelo que eu vejo é igual ao que você vê?”

A cada ponto ganho, as jogadoras iam pintando um pedacinho de suas respectivas grades de pontos, desenhadas na parede do salão de jogos, em forma de mandalas.

Para surpresa de Clara, aquilo tudo foi se transformando em um jogo de sedução. Ela estava perdida, apaixonara-se pelo homem bonito que, adormecido de cansaço, havia deixado os dados rolarem descontroladamente.

Clara abstraiu as companheiras, as cartas e os dados para somente admirar o homem em seu sono. Deitou-se ao seu lado, queria muito beijar a sua boca, a começar pelo lábio inferior, que a atraiu de modo especial.

Imaginou-se sozinha com ele e o momento do beijo, que seria tão intenso a ponto de levá-los para longe de tudo. Porém, nada disso aconteceu.

Quando o homem despertou, Clara fingia que dormia. Suas amigas já estavam para lá de cansadas, então o moço começou a se despedir de todas, porque no fundo aquele jogo foi aborrecedor.

O plano de Clara

O sonho de Clara era fugir do tédio da vida: todos os dias, levantar, ir à escola, almoçar, estudar, regar a terra, assistir ao Sítio do Pica-Pau-Amarelo, lanchar, desenhar e dormir.

Suas atividades não eram poucas, mas, afora desenhar e cultivar sementes no solo de um jardim aparentemente estéril, tudo parecia muito cansativo.

Para realizar seu sonho, Clara tinha um plano. Começou a arquitetá-lo quando percebeu que, sem uma atitude drástica, não se desapegaria de suas tarefas diárias.

Todos os dias, enquanto regava o jardim, Clara montava um pedacinho de seu quebra-cabeça. Até que, durante um desses rituais diários, foi acometida por uma sonolência irresistível.

Havia um rastro de grama fofa debaixo dos seus pés. Clara não se importou em deitar ali mesmo, naquela ilha verde, a única manifestação de vida do jardim.

24.10.06

O céu que nos envolve

Por Ulisses Capozzoli

Lembra-se de alguma vez ter acordado pela manhã e observado um raio de Sol perfurando uma fresta da janela e mostrando um vórtice de poeira em movimento, como um minúsculo tornado? Pois as estrelas da Galáxia se parecem um pouco com esta imagem quase onírica de uma manhã despertada no campo, com algum tempo para refletir sobre a vida, sem ter de se levantar, engolir rapidamente o café de manhã e correr para o trabalho.

Não olhamos mais para o céu, tampouco temos um tempo mínimo para refletir sobre o sentido da vida, e assim deixamos de fazer descobertas que podem mudar profundamente nossos pontos de vista. Podemos passar a vida inteira sem nenhuma dessas experiências, o que não deixa de ser surpreendente, afinal, o céu nos envolve por todos os lados.

Relações entre pessoas, observações e descobertas são sempre fascinantes, e aqui vamos considerar apenas mais uma delas para sugerir a importância de observar o céu para a compreensão dos mistérios da vida. Neste caso, a relação é a seguinte: boa parte da água disponível na Terra foi trazida por cometas (montanhas de gelo sujo que circulam pelo Sistema Solar).

Se você considerar que 60% da massa de seu corpo é formada por água, deduzirá sem dificuldade que parte de seu corpo já foi cometa no passado. Surpreendente? Claro. Surpreendente mas real como o dia que nasce. Assim, quando ouvir alguém dizer que somos poeira de estrelas, não duvide. É poético, mas também é real.

Ulisses Capozzoli, editor de Astronomy Brasil, é jornalista especializado em divulgação científica, mestre e doutor em ciências pela Universidade de São Paulo.

Leia aqui o artigo completo.

20.10.06

Poesia preferida 3

tem dias em que não quero
ser gente nem bicho
ter vontade ou orgulho
preguiça ou capricho
tem dias em que só quero
sentar e ficar sozinha
ver o vento me levar
qual folha bem sequinha.

de Maria Cristina (minha mãe)

Poesia preferida 2

no quarto,
a voz áspera rouca e sensual
de Janis Joplin
voz áspera de vidro e metal
que escorre pelas paredes
deixando para trás mel e fel.
na noite fria,
procuro a saída.

de Ana Maria (minha avó)

Poesia preferida 1

nunca mais vi o sol
dourando minhas manhãs
é que chega a maturidade
e pela ordem natural das coisas
tenho de colorir os meus poentes.

de Maria Cristina (minha mãe!)

3.10.06

Como eu me vejo

Minha mãe sempre disse que um dia me veria em cima de um foguete, fazendo a cobertura jornalística de alguma guerra por aí. Bom, não cheguei a tanto, e nem quero presenciar mais uma guerra no mundo. Mas pelo menos posso voar...



















(Valeu a dica, Paulinho, este desenho é muito bom!)

Clara tem um plano

Clara foi até o quintal para pegar mais água. Chamou-lhe atenção a luz acesa na casinha dos fundos, uma espécie de depósito de coisas velhas, que a desconcentrou de sua atividade de limpeza. Sentia uma forte atração, um desejo incontrolável de apagar aquela luz esquecida.

Abandonou o balde e foi até a casinha, de onde saiu uma menina estranha e descabelada, que conduziu Clara ao interior da habitação. A menina correu até o colo de um homem, igualmente estranho, sentando em uma poltrona de couro branco.

Para fingir que não sentia medo, Clara tentou uma aproximação. Inclusive perguntou ao velho se poderia fechar a porta, com a desculpa que ventava forte. Ele se levantou e disse: “Não, aqui mando eu!”.

Clara tentou controlar o seu pavor quando o homem se aproximou dela, rapidamente. Puxando-a pelo braço, ele sussurrou em seu ouvido: “Eu sempre morei aqui e você nunca percebeu. Sou seu verdadeiro pai.”

Ela já não prestava atenção em seu medo, agora estava absorvida por pensamentos mil. Quando despertou daquele devaneio, sua cabeça havia traçado um plano perfeito, e aquele estranho que se dizia seu pai poderia ser um grande aliado.

Clara em dia de visita

As horas voaram no dia em que Clara recebeu a visita de sua tia. Tanta coisa aconteceu, que quando ela olhou para o céu, já era noitinha. Bem, vamos então colocar em ordem tudo que se passou:

Clara estava na cozinha, seu lugar predileto na casa. Sua tia entrou com tudo e começou a vomitar feijão pelas paredes. Clara não entendeu nada, e saiu nervosa atrás da tia, que vomitava sem parar. Era feijão, milho, e depois de tantos grãos, dela saiu um líquido viscoso.

Enquanto a prima providenciava uma ambulância, Clara se preocupou em limpar aquela sujeira toda. Foi ao quintal, onde enchia baldes e baldes de água para jogar nas paredes e no chão da cozinha.

Pediu ajuda ao irmão para eliminar as crostas de vômito que haviam se formado sobre a pia, mas o irmão não entendeu a necessidade de Clara. "Não é problema, deixa isso aí", disse o garoto.

Mas Clara não suportava conviver com sujeira, então continuou a jogar água para todos os lados. Até que a tia apareceu, e ela mesma pegou uma faca para raspar a camada de vômito endurecido.

25.9.06

Quando Clara descobriu que não tinha casa

Clara foi ao encontro do pai e se aborreceu mais uma vez. Viu que ele vestia o filho de uma amiga da família, para deixá-lo na creche. Como se não bastasse o carinho dispensado ao estranho, o pai comentou, enquanto calçava o menino: “Você se lembra desta sandalhinha, Clara? Era sua”. Ela não se conteve: “Minha? E por que não a guarda? Um dia terei um filho para usá-la.”.

Outra pergunta sem resposta, jogada ao vento. Ninguém iria respondê-la, como sempre. Clara perdeu-se em idéias, rememorou cenas do passado, voltou à realidade, depois lembrou de um sonho que teve à noite, onde os espíritos do pai e da irmã rondavam sua casa. “Que casa?”

Quando Clara despertou, o pai já havia desaparecido. Clara correu até a rua, viu que a van já estava em movimento, a metros de distância, e ela seria forçada a sair correndo ou gritar. Fez as duas coisas, chamando atenção de todos os pedestres.

O pai parou o carro. Clara estava ofegante e deixou cair todos os seus livros, o que lhe provocou uma crise de choro. Inabalável, o pai disse: “Vamos, menina, suas irmãs estão atrasadas!”.

Novamente, ela teve pena de si mesma, mas engoliu os soluços para não chegar à escola com cara de choro. Ficaria lá o dia todo, até decidir o que fazer e para onde ir. Precisaria achar uma saída, pois a escola tampouco era sua casa.

A vida e os sonhos de Clara

A mãe e as irmãs estavam no quarto, arrumando o guarda-roupa. Clara se portava como mera expectadora. Tinha preguiça no corpo, não queria fazer nada além de exercitar seus neurônios. Enquanto reparava o tira-e-bota de coisas do armário, lembrou que precisava de uma toalha para levar à excursão da escola e comentou com a mãe, que lhe entregou um kit próprio para viagem, com uma toalhinha enrolada e uma amostra de perfume.

Quando Clara ensaiou um sorriso, a mãe chamou a irmã e disse que também tinha um presentinho para ela. Não era só uma toalha, não era só uma amostra de perfume. Era um kit completo, com toalha, perfume, saboneteira, escova de dente e de cabelo, e todas as miniaturas de viagem que Clara sempre sonhou ter. A mãe alegou que aquilo ela um presente de aniversário para a irmã. Mas... como assim? A festa da irmã aconteceu há mais de três meses, e Clara estava às vésperas de seus 18 anos!

Clara não sabia o que sentir naquele momento: ciúmes, raiva ou pena de si mesma? Saiu do quarto em um salto e foi até o gabinete da casa, onde pegou um papel e uma caneta, certa de que iria embora, mas antes deixaria um bilhete à mãe:

“Não se lembra do meu aniversário? Vou embora, não sei para onde. Estou triste e sozinha, mas ainda sou minha melhor companhia.”

Clara deixou o recado sobre a cama da mãe, que continuava compenetrada na arrumação dos armários. Não desistiu de ir embora, mas resolveu pegar uma carona com o pai para a escola, e de lá partiria, para sempre. Arrumou a mochila e deixou a casa com a sensação de que havia se esquecido de algo, então voltou e vasculhou mais uma vez seu pequeno quartinho. Pegou mais alguns livros e papéis, mas continuou com a mesma sensação.

17.9.06

Por uma vida interessante

Li o artigo abaixo no Estadão. Resolvi transcrevê-lo por um único e suficiente motivo: o mundo está tomado por gente assim, como aponta a descrição, ou pelo menos com uma das características citadas. Eis aqui um chamado "por uma vida interessante":

"Imagine alguém em cuja presença qualquer conversa seja impossível, seja por causa de sua incapacidade de ouvir o que os outro dizem, seja porque, deslumbrado com as suas próprias tiradas, ele perdeu o hábito da contradição, reduzindo toda conversa a um múrmurio isolado ou monólogo. Alguém que só conheça relações humanas incluídas em seu próprio roteiro teatral, no qual ele é sempre o ator principal, sendo os outros destituídos de qualquer interesse ou simpaia. Alguém com medo tão obssessivo de parecer rídiculo que tira fotos antes de aparecer em público com uma roupa nova. Que tenha domínio completo de suas emoções, sendo ora brutal, ora piedoso, capaz de sugestionar e seduzir unicamente pelo seu dom de persuação. Acrescente que este alguém não é nada espontâneo, leva uma existência pública onde cada gesto é medido, disciplinado ao ponto da rigidez, temeroso de revelar qualquer emoção, reagindo com poses e gestos estuados em detalhe, como se a vida fosse uma parada perpétua, lenta e hierárquica, diante de um gigantesco público.

Se você reconheceu uma destas características em alguém que lhe seja próximo, não se preocupe - problemão mesmo é se elas todas estiverem reunidas numa mesma pessoa, pois elas completam as linhas mais densas da personalidade de Adolf Hitler. Na cultura ocidental, enquadraríamos tal perfil na categoria dos megalomaníacos, nas modalidades dos narcisistas neuróticos ou loucos compulsivos. Já monges taoístas, budistas ou tibetanos apenas aconselhariam tal pessoas, com a bonomia de um largo sorriso, que apenas prestasse mais atenção aos outros e 'tivesse uma vida interessante'."

Hitler, a absoluta indiferença moral
Elias Thomé Saliba
O Estado de S. Paulo - Caderno Cultura
17 de setembro de 2006

5.9.06

3.9.06

A vida e os sonhos de Clara

Na aula de educação sentimental

Seu olhar se perdera nos lábios do professor, assim Clara fingia prestar atenção ao que ele dizia. Era sua nona aula de Educação Sentimental I na Universidade de Terapia Intensiva - UTI.

Até que, sem dar satisfação a ninguém, Clara saiu da sala, decidida a nadar na piscina da escola. Logo ela, sempre disciplinadíssima e cheia de atenção com os estudos!

Enquanto nadava, sentia-se tranqüila. Mas logo resolveu desistir da atividade, porque, de uma hora para a outra, a piscina foi tomada por gente que ela nunca havia visto na vida.

1.9.06

A vida e os sonhos de Clara

Clara abriu a torneira para encher o balde d’água. Para sua surpresa, ao invés de água, dali jorrou carne moída. Perguntou à vizinhança o porquê daquilo.

O vigilante lhe contou que, na época do governo Fernando Collor, foi instituída uma Medida Provisória em defesa dos ladrões que invadissem as casas alheias. Com carne moída nas torneiras dos jardins, os pobrezinhos dos bandidos poderiam se alimentar antes da fuga, assim ficariam mais fortes para carregar os pertences da vítima.

Apesar de ter acreditado na história do vigilante, Clara encheu o balde de carne moída para mostrá-la a avó e ao irmão, caso contrário eles não dariam a mínima ao estranho fenômeno, tamanha a atenção que dispensavam aos seus afazeres domésticos.

O caminho que ligava a porteira da chácara à casa grande era de terra. Clara precisava andar cuidadosamente, porque havia filetes de arame farpado escondidos entre os grãos de areia. Como carregava todo o peso do balde, a caminhada tornou-se penosa.

Ao chegar à casa velha da avó, Clara já se havia esquecido do balde, porque algo mais aberrante lhe chamara a atenção. Os canteiros do jardim, além de velhos, estavam descoloridos, desprovidos de flores.

Clara gritou pela avó e sugeriu que enterrassem ali algumas sementes, além de plantas já crescidas. Impacientemente, a avó protestou “não, não, não!”. “Mas vó, se o pai vier morar conosco, ele trará plantas para o nosso jardim.”, argumentou Clara. A avó respirou infinitamente fundo e saiu andando. Clara seguiu o rastro da velha, antecipando o seu pensamento: “Desse jeito, é melhor ele não vir”.

Como se não esperasse resposta, Clara voltou às suas atividades. Entrou na cozinha e abriu a geladeira velha. Era tudo velho naquela casa, exceto o computador de seu irmão.

Aliás, enquanto ela se preocupava com as plantas e o destino do balde - se deveria deixá-lo na geladeira, ou se falaria com a avó antes (“A vó não está bem, deixa pra lá...”) -, o irmão estava concentrado em suas artimanhas cibereróticas: procurava uma assistente para cuidar de suas planilhas de Excel. Porém, era sabido que a natureza do trabalho não seria bem essa...

Clara deixou o balde no canto da cozinha e se dirigiu à sala de jantar. No caminho, esbarrou com a candidata a assistente do irmão. Era uma garota balofa de 14 anos, com cabelos curtos e encaracolados, que invadiu a cozinha para pegar um prato. “Ora!”, exclamou Clara, aborrecida.

A garota voltou para a sala de jantar e se sentou à mesa, onde comeu fartamente. Clara resolveu observar toda aquela palhaçada de camarote. Encarou o irmão bravamente, mas logo sua fisionomia amarrada se transfigurou. Abriu os olhos para ter certeza do que via – o irmão havia envelhecido! Seu rosto estava repleto de reentrâncias e sua calvície aumentara. Parecia o Wolf Maia.

Sem perceber o espanto de Clara, o irmão aproximou-se da garotinha e sussurrou em seu ouvido, esfregando as mãos como um velho assanhado: “Eis a minha assistente!” Absorvida por seus pensamentos, Clara mirou a paisagem pela janela e citou um verso de sua poesia predileta, entre dentes: “A realidade é sempre mais ou menos do que nós queremos”.

29.8.06

Cartas a um Jovem Escritor

Para quem gosta de escrever, mas como eu não sabe se tem vocação para tal, recomendo o livro Cartas a um Jovem Escritor, de Mario Vargas Llosa. A leitura acaba rapidinho, e isso é um sinal de que o autor faz o que prega - escreve de forma persuasiva.

“...um homem ou uma mulher desenvolve precocemente, na infância ou no começo da adolescência, uma predisposição para fantasiar pessoas, situações, casos, mundos diversos do mundo em que vive, e essa inclinação é o ponto de partida do que mais tarde poderá se chamar vocação literária. Naturalmente existe um abismo entre essa propensão para se afastar, nas asas da imaginação, do mundo real e da vida de verdade, e o exercício da literatura, abismo este que a maioria dos seres humanos não chega a cruzar.” (Pag. 7)

26.8.06

Classificados

Procura-se trabalho 1/2 turno.
Se você já ouviu falar em algo do tipo, deixe aqui sua dica.

Ass.: Alguém que deseja descobrir sua verdadeira vocação,
mas não tem tempo.

Marginal

"Um belo dia, resolveram me chamar de Planeta. Agora, de Anão. Ora, quem são vocês? Eu pelo menos sei quem sou: apenas um corpo à margem do sistema solar. Deixem-me em paz aqui, nesta zona fria. Basta-me minha amante Caronte, que já me aquece o suficiente", disse Plutão a cientistas da União Astronômica Internacional sobre ser rebaixado à categoria de Planeta-Anão na última sexta-feira, 25.


O planeta Plutão
e seu satélite
Caronte (Charon):
amantes

18.8.06

Uma fábula para meu filho

Pessoas-girafas passeiam pelo nosso bairro. Elas têm cerca de três metros, sabia? Alcançam quase tudo: o teto da nossa casa, as folhinhas daquela árvore... Para encará-las, você precisa esticar bem o pescoço. As pessoas-girafas não têm nada de assustador. Podem até parecer orgulhosas, mas no fundo são muito “fofas”, como diria sua tia Ana. Fofas e acolhedoras, gentis e espertas também. Estão sempre com as antenas ligadas no que acontece à sua volta, e fuçam tudo o que é de mais secreto com seus narizes enooormes. Quando eu era pequena, queria ser uma pessoa-girafa. E você?

(Texto dedicado a Tio Paulinho Couto e Tia Ana Helena. Paulinho, porque gosta de fábulas e bichos. Ana, porque vai ter para quem contar essa história logo-logo. Ambos, pelo estímulo... e por serem pessoas-girafas.)

4.8.06

O que eu não falei

oi!
vc costuma se recordar de seus sonhos? eu lembro tudo em detalhes... este e-mail é justamente pra te contar que já sonhei várias vezes com vc. não se preocupe, não foi nada erótico (rs). e isso é o mais intrigante.. já sonhei que vc conduzia uma excursão, eu estava lá no meio dos turistas, seguindo suas instruções. tb fomos juntos ao supermercado em outra situação onírica, tudo pra não perder o ritmo da conversa que iniciáramos há muitas horas. e no sonho seguinte resolvemos encontrar um lugar pra beber e conversar, novamente porque não conseguíamos nos separar assim, tão fácil. eu só queria falar com vc..

28.7.06

Segredo

- Vou ao supermercado.
- Ah... Preciso ir também. Posso passar lá com você?
- Claro.
- Então, como a gente ia falando, trabalho de segunda a sábado, não tenho vontade de sair de bicicleta no fim de semana.
- Imagino... Fazer nada aos domingos é muito bom. Eu também não tenho saído, ando cansada de muita gente junta.
- Divirto-me mesmo é com futebol, fico até tarde assistindo aos jogos. Tenho vergonha de falar isso... Você não entende, não é?
- Há gosto para tudo! Mulher perde seu tempo fazendo as unhas, então estamos quites!

Silêncio por quinze segundos. Depois não pararam mais de conversar, até saírem do supermercado. Dali, tomariam rumos diferentes. Mas tudo bem, no dia seguinte haveria outra oportunidade para revelar seu segredo.

23.7.06

Matrix

Quem disse que o mundo dos sonhos é menos real do que este que nós chamamos de "real"? As histórias deste blog nascem dessa mesma pergunta, que roubei do filme Matrix, com a ajuda de uma ilustre fã da trilogia: minha prima Francisca.

Graças a essa reflexão, comecei a me interessar por histórias que viram sonhos que viram histórias. Minha pausa aqui, neste mundo real, é para frisar estas duas concepções de sonho:

Para o psicanalista austríaco Sigmund Freud (1856-1939), o sonho é uma atividade psíquica e demonstra que desejos não realizados na vida real se concretizam na fantasia. "Quem não se lembra de seus sonhos tem seus desejos reprimidos até no insconsciente".

Para o psicanalista suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), os sonhos são um produto da psique. Assim como a mente produz o pensamento quando estamos acordados, enquanto dormimos a psique libera o insconsciente para a criação onírica. "Quem se lembra dos sonhos dificilmente fica neurótico".

18.7.06

Bagunça

"Tanta coisa me interessa, mas nada tanto assim...". Foi isso que ela se disse em frente ao espelho, numa tentativa de auto-acolhimento, depois de chorar horas e horas em cima da cama. Chorava porque havia se perdido em seus sonhos e leituras, e acordara tarde demais para ir ao dentista. Também já estava atrasada para a aula de Filosofia. Culpou a todos os parentes pela desorganização da casa, que seria a fonte de toda essa confusão. Não havia percebido que o lugar onde dormia era exatamente a projeção da sua mente bagunçada.

16.7.06

A primeira girafa da China

Fiquei pensando por que as girafas são tão fascinantes para mim. Veja só, encontrei isto e acho que faz sentido:

"Desconhecida fora do continente africano, a girafa despertava de tal modo a curiosidade que era enviada para outros países como presente diplomático. Uma das primeiras referências narra sobre um presente do Sultão de Malindi (costa do Quênia) ao imperador chinês Yongle, da Dinastia Ming (1368-1644).

Yong-le, também chamado de Yung-lo, foi um governante expansionista entre 1403 a 1424 que soube usar o poder naval durante a Dinastia Ming – considerada a mais estável e próspera de todas.

No início do século XV, a serviço dele, o almirante eunuco Zheng He empreendeu sete expedições marítimas que o levaram entre o porto chinês de Nanquim a outros portos distantes.

Foi a sua quarta expedição que trouxe à China a primeira girafa — presente do sultão de Malindi ao imperador chinês. Toda corte se reúne em uma das portas de Beijing, num dia de verão, de 1415, para admirar o majestoso andar e o ritmo dos movimentos da girafa.

Na China, zhi lin ou qilin é um animal mítico considerado sinal de boa sorte e felicidade, tem cabeça de dragão, corpo de veado, pescoço de cachorro, pernas de cavalo e rabo de vaca. Simboliza benevolência do imperador e aparece quando este reina com prosperidade e ascendência.

A primeira girafa que chegou à China foi considerada um presente muito auspicioso, pois chamada na língua da antiga Somaliland (atual norte da Somália) de girin - também uma antiga expressão utilizada na China "chi'i-lin" (uma espécie de unicórnio), assim como uma cidade do leste do país: jilin), imediatamente, foi nomeada pelos chineses de qilin.

Logo ela virou emblema de paz, harmonia e virtude, tornando-se o animal mítico da felicidade. Ela se juntou com outras criaturas exóticas no zoológico particular do imperador: a Floresta Proibida."

Coisas que me inspiram













Ontem sonhei
com girafas
elegantes e
aparentemente
tranqüilas.

9.7.06

Vermeer


Você estava em meu sonho, lá em Delft, onde nasceu Johannes Vermeer. No seu laboratório de ilusões, não via nada além daquela luz artificial à sua frente. Perdia o espetáculo do raio de sol que invadia o quarto, tamanho era seu interesse pelo mundo virtual. Nada podia tocá-lo, nem mesmo a mão quente e suplicante da moça com brincos de pérola.

28.6.06

O tempo

A escola tinha uma área de lazer imensa, com chão de areia para brincar de gude, e havia ainda um espaço coberto, onde as crianças se reuniam nos dias de chuva para jogar handebol.

Apesar do sol daquele dia, nos concentramos na área coberta, pois lá ficaríamos mais próximos uns dos outros. Encontrei Melissa, que estudava comigo desde os quatro anos. Ela estava totalmente distraída com a idéia de que faria uma aula de patins à tarde. Então não consegui puxar muito papo. Tudo bem, há muito tempo ela já não era mais a mesma - não deixava mais seus livros na cadeira vizinha, como sempre fazia, para guardar o lugar para mim.

Quando ela disse pela primeira vez que a cadeira ao seu lado não era minha, foi uma grande decepção. A partir de então, a beneficiada seria outra colega, que não tinha o mínimo contato com a gente, não compartilhava de nossas brincadeiras e risadas... Fiquei triste por dias.

O tempo passou e nos separou.

26.6.06

Contraditória

Naquela gincana escolar, eu seria o personagem principal do teatro - encarnaria a estátua do Buda.

Buda disse para jogarmos as coisas velhas fora, que as novas viriam. Mas eu, vestida de Buda, não falaria nada durante a peça. Afinal, seria apenas uma estátua.

Enrolei-me em um tecido laranja, pintei o rosto de branco e providenciei uma touca de meia fina. Tudo para ninguém me perceber no palco.

20.6.06

Revelação

Havia completado 45 anos sem filhos. Pelo menos era o que se pensava. Aos 46, apareceu com a história de uma filha, até então criada pelo pai. A revelação foi feita a cada irmão, primo e sobrinho individualmente, e a menina virou o centro das atenções no dia do primeiro encontro familiar. Tinha cabelos fartos e embaraçados, como os da mãe. De perto, sua cabeça exalava um cheiro de abandono. Mas mais desamparada parecia a mãe, que não sabia como esconder a sua vergonha.

30.1.06

Chegada

No escuro daquela noite, eu não sabia para onde ir, se rumaria para o Sul, seguindo a direção do rio, ou para o Norte, até que alguém me disse - é para o Norte que você precisa ir, não? Peguei a bicicleta e segui a orientação, mas encontrei mais três caminhos pela frente. Tomei o da direita e fui descendo, até desembocar num jardim e cair sobre um monte de almofadas. Estava ali, era a casa da minha família.
Pensava que houvesse sido uma chegada triunfal, mas as pessoas não fizeram festa alguma.