28.6.06

O tempo

A escola tinha uma área de lazer imensa, com chão de areia para brincar de gude, e havia ainda um espaço coberto, onde as crianças se reuniam nos dias de chuva para jogar handebol.

Apesar do sol daquele dia, nos concentramos na área coberta, pois lá ficaríamos mais próximos uns dos outros. Encontrei Melissa, que estudava comigo desde os quatro anos. Ela estava totalmente distraída com a idéia de que faria uma aula de patins à tarde. Então não consegui puxar muito papo. Tudo bem, há muito tempo ela já não era mais a mesma - não deixava mais seus livros na cadeira vizinha, como sempre fazia, para guardar o lugar para mim.

Quando ela disse pela primeira vez que a cadeira ao seu lado não era minha, foi uma grande decepção. A partir de então, a beneficiada seria outra colega, que não tinha o mínimo contato com a gente, não compartilhava de nossas brincadeiras e risadas... Fiquei triste por dias.

O tempo passou e nos separou.

26.6.06

Contraditória

Naquela gincana escolar, eu seria o personagem principal do teatro - encarnaria a estátua do Buda.

Buda disse para jogarmos as coisas velhas fora, que as novas viriam. Mas eu, vestida de Buda, não falaria nada durante a peça. Afinal, seria apenas uma estátua.

Enrolei-me em um tecido laranja, pintei o rosto de branco e providenciei uma touca de meia fina. Tudo para ninguém me perceber no palco.

20.6.06

Revelação

Havia completado 45 anos sem filhos. Pelo menos era o que se pensava. Aos 46, apareceu com a história de uma filha, até então criada pelo pai. A revelação foi feita a cada irmão, primo e sobrinho individualmente, e a menina virou o centro das atenções no dia do primeiro encontro familiar. Tinha cabelos fartos e embaraçados, como os da mãe. De perto, sua cabeça exalava um cheiro de abandono. Mas mais desamparada parecia a mãe, que não sabia como esconder a sua vergonha.