25.9.06

Quando Clara descobriu que não tinha casa

Clara foi ao encontro do pai e se aborreceu mais uma vez. Viu que ele vestia o filho de uma amiga da família, para deixá-lo na creche. Como se não bastasse o carinho dispensado ao estranho, o pai comentou, enquanto calçava o menino: “Você se lembra desta sandalhinha, Clara? Era sua”. Ela não se conteve: “Minha? E por que não a guarda? Um dia terei um filho para usá-la.”.

Outra pergunta sem resposta, jogada ao vento. Ninguém iria respondê-la, como sempre. Clara perdeu-se em idéias, rememorou cenas do passado, voltou à realidade, depois lembrou de um sonho que teve à noite, onde os espíritos do pai e da irmã rondavam sua casa. “Que casa?”

Quando Clara despertou, o pai já havia desaparecido. Clara correu até a rua, viu que a van já estava em movimento, a metros de distância, e ela seria forçada a sair correndo ou gritar. Fez as duas coisas, chamando atenção de todos os pedestres.

O pai parou o carro. Clara estava ofegante e deixou cair todos os seus livros, o que lhe provocou uma crise de choro. Inabalável, o pai disse: “Vamos, menina, suas irmãs estão atrasadas!”.

Novamente, ela teve pena de si mesma, mas engoliu os soluços para não chegar à escola com cara de choro. Ficaria lá o dia todo, até decidir o que fazer e para onde ir. Precisaria achar uma saída, pois a escola tampouco era sua casa.

A vida e os sonhos de Clara

A mãe e as irmãs estavam no quarto, arrumando o guarda-roupa. Clara se portava como mera expectadora. Tinha preguiça no corpo, não queria fazer nada além de exercitar seus neurônios. Enquanto reparava o tira-e-bota de coisas do armário, lembrou que precisava de uma toalha para levar à excursão da escola e comentou com a mãe, que lhe entregou um kit próprio para viagem, com uma toalhinha enrolada e uma amostra de perfume.

Quando Clara ensaiou um sorriso, a mãe chamou a irmã e disse que também tinha um presentinho para ela. Não era só uma toalha, não era só uma amostra de perfume. Era um kit completo, com toalha, perfume, saboneteira, escova de dente e de cabelo, e todas as miniaturas de viagem que Clara sempre sonhou ter. A mãe alegou que aquilo ela um presente de aniversário para a irmã. Mas... como assim? A festa da irmã aconteceu há mais de três meses, e Clara estava às vésperas de seus 18 anos!

Clara não sabia o que sentir naquele momento: ciúmes, raiva ou pena de si mesma? Saiu do quarto em um salto e foi até o gabinete da casa, onde pegou um papel e uma caneta, certa de que iria embora, mas antes deixaria um bilhete à mãe:

“Não se lembra do meu aniversário? Vou embora, não sei para onde. Estou triste e sozinha, mas ainda sou minha melhor companhia.”

Clara deixou o recado sobre a cama da mãe, que continuava compenetrada na arrumação dos armários. Não desistiu de ir embora, mas resolveu pegar uma carona com o pai para a escola, e de lá partiria, para sempre. Arrumou a mochila e deixou a casa com a sensação de que havia se esquecido de algo, então voltou e vasculhou mais uma vez seu pequeno quartinho. Pegou mais alguns livros e papéis, mas continuou com a mesma sensação.

17.9.06

Por uma vida interessante

Li o artigo abaixo no Estadão. Resolvi transcrevê-lo por um único e suficiente motivo: o mundo está tomado por gente assim, como aponta a descrição, ou pelo menos com uma das características citadas. Eis aqui um chamado "por uma vida interessante":

"Imagine alguém em cuja presença qualquer conversa seja impossível, seja por causa de sua incapacidade de ouvir o que os outro dizem, seja porque, deslumbrado com as suas próprias tiradas, ele perdeu o hábito da contradição, reduzindo toda conversa a um múrmurio isolado ou monólogo. Alguém que só conheça relações humanas incluídas em seu próprio roteiro teatral, no qual ele é sempre o ator principal, sendo os outros destituídos de qualquer interesse ou simpaia. Alguém com medo tão obssessivo de parecer rídiculo que tira fotos antes de aparecer em público com uma roupa nova. Que tenha domínio completo de suas emoções, sendo ora brutal, ora piedoso, capaz de sugestionar e seduzir unicamente pelo seu dom de persuação. Acrescente que este alguém não é nada espontâneo, leva uma existência pública onde cada gesto é medido, disciplinado ao ponto da rigidez, temeroso de revelar qualquer emoção, reagindo com poses e gestos estuados em detalhe, como se a vida fosse uma parada perpétua, lenta e hierárquica, diante de um gigantesco público.

Se você reconheceu uma destas características em alguém que lhe seja próximo, não se preocupe - problemão mesmo é se elas todas estiverem reunidas numa mesma pessoa, pois elas completam as linhas mais densas da personalidade de Adolf Hitler. Na cultura ocidental, enquadraríamos tal perfil na categoria dos megalomaníacos, nas modalidades dos narcisistas neuróticos ou loucos compulsivos. Já monges taoístas, budistas ou tibetanos apenas aconselhariam tal pessoas, com a bonomia de um largo sorriso, que apenas prestasse mais atenção aos outros e 'tivesse uma vida interessante'."

Hitler, a absoluta indiferença moral
Elias Thomé Saliba
O Estado de S. Paulo - Caderno Cultura
17 de setembro de 2006

5.9.06

3.9.06

A vida e os sonhos de Clara

Na aula de educação sentimental

Seu olhar se perdera nos lábios do professor, assim Clara fingia prestar atenção ao que ele dizia. Era sua nona aula de Educação Sentimental I na Universidade de Terapia Intensiva - UTI.

Até que, sem dar satisfação a ninguém, Clara saiu da sala, decidida a nadar na piscina da escola. Logo ela, sempre disciplinadíssima e cheia de atenção com os estudos!

Enquanto nadava, sentia-se tranqüila. Mas logo resolveu desistir da atividade, porque, de uma hora para a outra, a piscina foi tomada por gente que ela nunca havia visto na vida.

1.9.06

A vida e os sonhos de Clara

Clara abriu a torneira para encher o balde d’água. Para sua surpresa, ao invés de água, dali jorrou carne moída. Perguntou à vizinhança o porquê daquilo.

O vigilante lhe contou que, na época do governo Fernando Collor, foi instituída uma Medida Provisória em defesa dos ladrões que invadissem as casas alheias. Com carne moída nas torneiras dos jardins, os pobrezinhos dos bandidos poderiam se alimentar antes da fuga, assim ficariam mais fortes para carregar os pertences da vítima.

Apesar de ter acreditado na história do vigilante, Clara encheu o balde de carne moída para mostrá-la a avó e ao irmão, caso contrário eles não dariam a mínima ao estranho fenômeno, tamanha a atenção que dispensavam aos seus afazeres domésticos.

O caminho que ligava a porteira da chácara à casa grande era de terra. Clara precisava andar cuidadosamente, porque havia filetes de arame farpado escondidos entre os grãos de areia. Como carregava todo o peso do balde, a caminhada tornou-se penosa.

Ao chegar à casa velha da avó, Clara já se havia esquecido do balde, porque algo mais aberrante lhe chamara a atenção. Os canteiros do jardim, além de velhos, estavam descoloridos, desprovidos de flores.

Clara gritou pela avó e sugeriu que enterrassem ali algumas sementes, além de plantas já crescidas. Impacientemente, a avó protestou “não, não, não!”. “Mas vó, se o pai vier morar conosco, ele trará plantas para o nosso jardim.”, argumentou Clara. A avó respirou infinitamente fundo e saiu andando. Clara seguiu o rastro da velha, antecipando o seu pensamento: “Desse jeito, é melhor ele não vir”.

Como se não esperasse resposta, Clara voltou às suas atividades. Entrou na cozinha e abriu a geladeira velha. Era tudo velho naquela casa, exceto o computador de seu irmão.

Aliás, enquanto ela se preocupava com as plantas e o destino do balde - se deveria deixá-lo na geladeira, ou se falaria com a avó antes (“A vó não está bem, deixa pra lá...”) -, o irmão estava concentrado em suas artimanhas cibereróticas: procurava uma assistente para cuidar de suas planilhas de Excel. Porém, era sabido que a natureza do trabalho não seria bem essa...

Clara deixou o balde no canto da cozinha e se dirigiu à sala de jantar. No caminho, esbarrou com a candidata a assistente do irmão. Era uma garota balofa de 14 anos, com cabelos curtos e encaracolados, que invadiu a cozinha para pegar um prato. “Ora!”, exclamou Clara, aborrecida.

A garota voltou para a sala de jantar e se sentou à mesa, onde comeu fartamente. Clara resolveu observar toda aquela palhaçada de camarote. Encarou o irmão bravamente, mas logo sua fisionomia amarrada se transfigurou. Abriu os olhos para ter certeza do que via – o irmão havia envelhecido! Seu rosto estava repleto de reentrâncias e sua calvície aumentara. Parecia o Wolf Maia.

Sem perceber o espanto de Clara, o irmão aproximou-se da garotinha e sussurrou em seu ouvido, esfregando as mãos como um velho assanhado: “Eis a minha assistente!” Absorvida por seus pensamentos, Clara mirou a paisagem pela janela e citou um verso de sua poesia predileta, entre dentes: “A realidade é sempre mais ou menos do que nós queremos”.