17.9.06

Por uma vida interessante

Li o artigo abaixo no Estadão. Resolvi transcrevê-lo por um único e suficiente motivo: o mundo está tomado por gente assim, como aponta a descrição, ou pelo menos com uma das características citadas. Eis aqui um chamado "por uma vida interessante":

"Imagine alguém em cuja presença qualquer conversa seja impossível, seja por causa de sua incapacidade de ouvir o que os outro dizem, seja porque, deslumbrado com as suas próprias tiradas, ele perdeu o hábito da contradição, reduzindo toda conversa a um múrmurio isolado ou monólogo. Alguém que só conheça relações humanas incluídas em seu próprio roteiro teatral, no qual ele é sempre o ator principal, sendo os outros destituídos de qualquer interesse ou simpaia. Alguém com medo tão obssessivo de parecer rídiculo que tira fotos antes de aparecer em público com uma roupa nova. Que tenha domínio completo de suas emoções, sendo ora brutal, ora piedoso, capaz de sugestionar e seduzir unicamente pelo seu dom de persuação. Acrescente que este alguém não é nada espontâneo, leva uma existência pública onde cada gesto é medido, disciplinado ao ponto da rigidez, temeroso de revelar qualquer emoção, reagindo com poses e gestos estuados em detalhe, como se a vida fosse uma parada perpétua, lenta e hierárquica, diante de um gigantesco público.

Se você reconheceu uma destas características em alguém que lhe seja próximo, não se preocupe - problemão mesmo é se elas todas estiverem reunidas numa mesma pessoa, pois elas completam as linhas mais densas da personalidade de Adolf Hitler. Na cultura ocidental, enquadraríamos tal perfil na categoria dos megalomaníacos, nas modalidades dos narcisistas neuróticos ou loucos compulsivos. Já monges taoístas, budistas ou tibetanos apenas aconselhariam tal pessoas, com a bonomia de um largo sorriso, que apenas prestasse mais atenção aos outros e 'tivesse uma vida interessante'."

Hitler, a absoluta indiferença moral
Elias Thomé Saliba
O Estado de S. Paulo - Caderno Cultura
17 de setembro de 2006

5.9.06