1.9.06

A vida e os sonhos de Clara

Clara abriu a torneira para encher o balde d’água. Para sua surpresa, ao invés de água, dali jorrou carne moída. Perguntou à vizinhança o porquê daquilo.

O vigilante lhe contou que, na época do governo Fernando Collor, foi instituída uma Medida Provisória em defesa dos ladrões que invadissem as casas alheias. Com carne moída nas torneiras dos jardins, os pobrezinhos dos bandidos poderiam se alimentar antes da fuga, assim ficariam mais fortes para carregar os pertences da vítima.

Apesar de ter acreditado na história do vigilante, Clara encheu o balde de carne moída para mostrá-la a avó e ao irmão, caso contrário eles não dariam a mínima ao estranho fenômeno, tamanha a atenção que dispensavam aos seus afazeres domésticos.

O caminho que ligava a porteira da chácara à casa grande era de terra. Clara precisava andar cuidadosamente, porque havia filetes de arame farpado escondidos entre os grãos de areia. Como carregava todo o peso do balde, a caminhada tornou-se penosa.

Ao chegar à casa velha da avó, Clara já se havia esquecido do balde, porque algo mais aberrante lhe chamara a atenção. Os canteiros do jardim, além de velhos, estavam descoloridos, desprovidos de flores.

Clara gritou pela avó e sugeriu que enterrassem ali algumas sementes, além de plantas já crescidas. Impacientemente, a avó protestou “não, não, não!”. “Mas vó, se o pai vier morar conosco, ele trará plantas para o nosso jardim.”, argumentou Clara. A avó respirou infinitamente fundo e saiu andando. Clara seguiu o rastro da velha, antecipando o seu pensamento: “Desse jeito, é melhor ele não vir”.

Como se não esperasse resposta, Clara voltou às suas atividades. Entrou na cozinha e abriu a geladeira velha. Era tudo velho naquela casa, exceto o computador de seu irmão.

Aliás, enquanto ela se preocupava com as plantas e o destino do balde - se deveria deixá-lo na geladeira, ou se falaria com a avó antes (“A vó não está bem, deixa pra lá...”) -, o irmão estava concentrado em suas artimanhas cibereróticas: procurava uma assistente para cuidar de suas planilhas de Excel. Porém, era sabido que a natureza do trabalho não seria bem essa...

Clara deixou o balde no canto da cozinha e se dirigiu à sala de jantar. No caminho, esbarrou com a candidata a assistente do irmão. Era uma garota balofa de 14 anos, com cabelos curtos e encaracolados, que invadiu a cozinha para pegar um prato. “Ora!”, exclamou Clara, aborrecida.

A garota voltou para a sala de jantar e se sentou à mesa, onde comeu fartamente. Clara resolveu observar toda aquela palhaçada de camarote. Encarou o irmão bravamente, mas logo sua fisionomia amarrada se transfigurou. Abriu os olhos para ter certeza do que via – o irmão havia envelhecido! Seu rosto estava repleto de reentrâncias e sua calvície aumentara. Parecia o Wolf Maia.

Sem perceber o espanto de Clara, o irmão aproximou-se da garotinha e sussurrou em seu ouvido, esfregando as mãos como um velho assanhado: “Eis a minha assistente!” Absorvida por seus pensamentos, Clara mirou a paisagem pela janela e citou um verso de sua poesia predileta, entre dentes: “A realidade é sempre mais ou menos do que nós queremos”.

2 comentários:

Ana Helena Passos disse...

roberta!!!
adorei a história. não estou escrevendo muito ultimamente, em tudo. foi um mês dificil, mas estou de volta ao rumo do barco...
Sonhei com meu pai hoje... um sonho lindo, que ainda escrevo e lhe envio. Antes disso, queria te contar. Contar aqui nas páginas dos sonhos para ficar registrado... ele chegava com um amigo, parecia um anjo, que me abraçava de uma forma calma e carinhosa. eu tinha a nítida sensação de que saia palavras da força dos braços do rapaz. E ele me falava que o/a nene estava bem...
acordei muito tranquila( mas do que o normal rsrsr) e resolvi compartilhar com a senhora dos sonhos.
PS: cascata criou um blog:)! legal...
beijos em voce, em voces!

saudades...

Paulinho disse...

Eu teria medo se meus sonhos fossem como os seus. Certas coisas eu deixo para sonhar acordado, para manter o controle e desligar se ficar muito esquisito. Mas não sou covarde! Só um pouquinho medroso...