25.9.06

A vida e os sonhos de Clara

A mãe e as irmãs estavam no quarto, arrumando o guarda-roupa. Clara se portava como mera expectadora. Tinha preguiça no corpo, não queria fazer nada além de exercitar seus neurônios. Enquanto reparava o tira-e-bota de coisas do armário, lembrou que precisava de uma toalha para levar à excursão da escola e comentou com a mãe, que lhe entregou um kit próprio para viagem, com uma toalhinha enrolada e uma amostra de perfume.

Quando Clara ensaiou um sorriso, a mãe chamou a irmã e disse que também tinha um presentinho para ela. Não era só uma toalha, não era só uma amostra de perfume. Era um kit completo, com toalha, perfume, saboneteira, escova de dente e de cabelo, e todas as miniaturas de viagem que Clara sempre sonhou ter. A mãe alegou que aquilo ela um presente de aniversário para a irmã. Mas... como assim? A festa da irmã aconteceu há mais de três meses, e Clara estava às vésperas de seus 18 anos!

Clara não sabia o que sentir naquele momento: ciúmes, raiva ou pena de si mesma? Saiu do quarto em um salto e foi até o gabinete da casa, onde pegou um papel e uma caneta, certa de que iria embora, mas antes deixaria um bilhete à mãe:

“Não se lembra do meu aniversário? Vou embora, não sei para onde. Estou triste e sozinha, mas ainda sou minha melhor companhia.”

Clara deixou o recado sobre a cama da mãe, que continuava compenetrada na arrumação dos armários. Não desistiu de ir embora, mas resolveu pegar uma carona com o pai para a escola, e de lá partiria, para sempre. Arrumou a mochila e deixou a casa com a sensação de que havia se esquecido de algo, então voltou e vasculhou mais uma vez seu pequeno quartinho. Pegou mais alguns livros e papéis, mas continuou com a mesma sensação.

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