26.10.06

Intertextos

Estava lendo a definição da palavra "sonho":

"so.nho sm (lat somniu) 1. Imaginação sem fundamento, seqüência de idéias vãs e incoerentes, às quais o espírito se entrega; devaneio, fantasia, ilusão, utopia."

... e me recordei da passagem de um livro:

"Chamou-a Utopia, palavra grega cujo significado é não existe tal lugar" (Quevedo, citado por BORGES, Jorge Luis. "Utopia de um homem que está cansado". In O Livro de Areia. São Paulo: Globo, 2001).

25.10.06

Apenas um sonho

Clara acordou cansada de seu sonho. Tanta expectativa, mas nenhuma realização... Havia sonhado com o sonho de ir embora. Mas continuava ali, no jardim sem flores da sua casa. A realidade é que precisava terminar de regar a terra estéril ao seu redor.

O jogo das cores

Clara adormeceu e sonhou.

Sonhou que jogava o jogo das cores com suas amigas, e o condutor, aquele que daria as cartas, era nada menos que o homem mais bonito do mundo.

Clara percebeu que, se tivesse sucesso no jogo, poderia fugir dali com o moço. Então ficou atenta às perguntas lançadas às jogadoras. “Será que o amarelo que eu vejo é igual ao que você vê?”

A cada ponto ganho, as jogadoras iam pintando um pedacinho de suas respectivas grades de pontos, desenhadas na parede do salão de jogos, em forma de mandalas.

Para surpresa de Clara, aquilo tudo foi se transformando em um jogo de sedução. Ela estava perdida, apaixonara-se pelo homem bonito que, adormecido de cansaço, havia deixado os dados rolarem descontroladamente.

Clara abstraiu as companheiras, as cartas e os dados para somente admirar o homem em seu sono. Deitou-se ao seu lado, queria muito beijar a sua boca, a começar pelo lábio inferior, que a atraiu de modo especial.

Imaginou-se sozinha com ele e o momento do beijo, que seria tão intenso a ponto de levá-los para longe de tudo. Porém, nada disso aconteceu.

Quando o homem despertou, Clara fingia que dormia. Suas amigas já estavam para lá de cansadas, então o moço começou a se despedir de todas, porque no fundo aquele jogo foi aborrecedor.

O plano de Clara

O sonho de Clara era fugir do tédio da vida: todos os dias, levantar, ir à escola, almoçar, estudar, regar a terra, assistir ao Sítio do Pica-Pau-Amarelo, lanchar, desenhar e dormir.

Suas atividades não eram poucas, mas, afora desenhar e cultivar sementes no solo de um jardim aparentemente estéril, tudo parecia muito cansativo.

Para realizar seu sonho, Clara tinha um plano. Começou a arquitetá-lo quando percebeu que, sem uma atitude drástica, não se desapegaria de suas tarefas diárias.

Todos os dias, enquanto regava o jardim, Clara montava um pedacinho de seu quebra-cabeça. Até que, durante um desses rituais diários, foi acometida por uma sonolência irresistível.

Havia um rastro de grama fofa debaixo dos seus pés. Clara não se importou em deitar ali mesmo, naquela ilha verde, a única manifestação de vida do jardim.

24.10.06

O céu que nos envolve

Por Ulisses Capozzoli

Lembra-se de alguma vez ter acordado pela manhã e observado um raio de Sol perfurando uma fresta da janela e mostrando um vórtice de poeira em movimento, como um minúsculo tornado? Pois as estrelas da Galáxia se parecem um pouco com esta imagem quase onírica de uma manhã despertada no campo, com algum tempo para refletir sobre a vida, sem ter de se levantar, engolir rapidamente o café de manhã e correr para o trabalho.

Não olhamos mais para o céu, tampouco temos um tempo mínimo para refletir sobre o sentido da vida, e assim deixamos de fazer descobertas que podem mudar profundamente nossos pontos de vista. Podemos passar a vida inteira sem nenhuma dessas experiências, o que não deixa de ser surpreendente, afinal, o céu nos envolve por todos os lados.

Relações entre pessoas, observações e descobertas são sempre fascinantes, e aqui vamos considerar apenas mais uma delas para sugerir a importância de observar o céu para a compreensão dos mistérios da vida. Neste caso, a relação é a seguinte: boa parte da água disponível na Terra foi trazida por cometas (montanhas de gelo sujo que circulam pelo Sistema Solar).

Se você considerar que 60% da massa de seu corpo é formada por água, deduzirá sem dificuldade que parte de seu corpo já foi cometa no passado. Surpreendente? Claro. Surpreendente mas real como o dia que nasce. Assim, quando ouvir alguém dizer que somos poeira de estrelas, não duvide. É poético, mas também é real.

Ulisses Capozzoli, editor de Astronomy Brasil, é jornalista especializado em divulgação científica, mestre e doutor em ciências pela Universidade de São Paulo.

Leia aqui o artigo completo.

20.10.06

Poesia preferida 3

tem dias em que não quero
ser gente nem bicho
ter vontade ou orgulho
preguiça ou capricho
tem dias em que só quero
sentar e ficar sozinha
ver o vento me levar
qual folha bem sequinha.

de Maria Cristina (minha mãe)

Poesia preferida 2

no quarto,
a voz áspera rouca e sensual
de Janis Joplin
voz áspera de vidro e metal
que escorre pelas paredes
deixando para trás mel e fel.
na noite fria,
procuro a saída.

de Ana Maria (minha avó)

Poesia preferida 1

nunca mais vi o sol
dourando minhas manhãs
é que chega a maturidade
e pela ordem natural das coisas
tenho de colorir os meus poentes.

de Maria Cristina (minha mãe!)

3.10.06

Como eu me vejo

Minha mãe sempre disse que um dia me veria em cima de um foguete, fazendo a cobertura jornalística de alguma guerra por aí. Bom, não cheguei a tanto, e nem quero presenciar mais uma guerra no mundo. Mas pelo menos posso voar...



















(Valeu a dica, Paulinho, este desenho é muito bom!)

Clara tem um plano

Clara foi até o quintal para pegar mais água. Chamou-lhe atenção a luz acesa na casinha dos fundos, uma espécie de depósito de coisas velhas, que a desconcentrou de sua atividade de limpeza. Sentia uma forte atração, um desejo incontrolável de apagar aquela luz esquecida.

Abandonou o balde e foi até a casinha, de onde saiu uma menina estranha e descabelada, que conduziu Clara ao interior da habitação. A menina correu até o colo de um homem, igualmente estranho, sentando em uma poltrona de couro branco.

Para fingir que não sentia medo, Clara tentou uma aproximação. Inclusive perguntou ao velho se poderia fechar a porta, com a desculpa que ventava forte. Ele se levantou e disse: “Não, aqui mando eu!”.

Clara tentou controlar o seu pavor quando o homem se aproximou dela, rapidamente. Puxando-a pelo braço, ele sussurrou em seu ouvido: “Eu sempre morei aqui e você nunca percebeu. Sou seu verdadeiro pai.”

Ela já não prestava atenção em seu medo, agora estava absorvida por pensamentos mil. Quando despertou daquele devaneio, sua cabeça havia traçado um plano perfeito, e aquele estranho que se dizia seu pai poderia ser um grande aliado.

Clara em dia de visita

As horas voaram no dia em que Clara recebeu a visita de sua tia. Tanta coisa aconteceu, que quando ela olhou para o céu, já era noitinha. Bem, vamos então colocar em ordem tudo que se passou:

Clara estava na cozinha, seu lugar predileto na casa. Sua tia entrou com tudo e começou a vomitar feijão pelas paredes. Clara não entendeu nada, e saiu nervosa atrás da tia, que vomitava sem parar. Era feijão, milho, e depois de tantos grãos, dela saiu um líquido viscoso.

Enquanto a prima providenciava uma ambulância, Clara se preocupou em limpar aquela sujeira toda. Foi ao quintal, onde enchia baldes e baldes de água para jogar nas paredes e no chão da cozinha.

Pediu ajuda ao irmão para eliminar as crostas de vômito que haviam se formado sobre a pia, mas o irmão não entendeu a necessidade de Clara. "Não é problema, deixa isso aí", disse o garoto.

Mas Clara não suportava conviver com sujeira, então continuou a jogar água para todos os lados. Até que a tia apareceu, e ela mesma pegou uma faca para raspar a camada de vômito endurecido.