1.11.07

Clara reflete sobre a amizade

Clara resolveu “encarar” a excursão da faculdade, cujo destino seria um albergue de moças no interior do Estado. Era uma região explorada pelo esporte de aventura. Apesar de odiar tudo que fosse segmentado - "moças", "moços", “esportistas de aventura” etc. -, Clara achava que essa seria uma boa oportunidade para ficar longe de casa.

Porém, o que deveria ser um fim de semana divertido, transformou-se em mais uma missão impossível para Clara – parar de pensar em coisas sérias. Seu esforço começou desde o ônibus da excursão, quando suas colegas entraram em um estado de excitação coletiva. Tudo porque conheceriam meninos novos na festa da Congregação de Albergues.

Clara não estava preocupada com meninos novos. Se encontrasse alguém esquisito como ela, ótimo. Mas seu principal objetivo e, teoricamente, sua fonte de paz interior, seria ficar longe de casa. Era o bastante.

Já nos quartos do albergue, as meninas disputaram o melhor colchão. Depois começaram a arrumar suas roupas e apetrechos nos armários. Clara queria dividir esse momento com alguém, mas todas estavam tão preocupadas com os meninos, que nem pensavam nos detalhes mais singelos. Quem ficaria próximo de quem, para dividir confidências à noite? Quem, como ela, teria um caderninho para anotar as curiosidades sobre o local? Pelo visto, ninguém.

Frustrada, Clara manteve sua mochila fechada, no canto do quarto. Suspirou e saiu do albergue para observar a vizinhança. Com os olhos voltados para os morros na linha do horizonte, descansou a vista e tentou esquecer esses malditos detalhes, que não fariam muita diferença em uma excursão de universitárias solteiras.

De volta ao albergue, as meninas haviam juntado todos os xampus e sabonetes no banheiro. Clara começou a procurar seu xampu entre as dezenas de frascos. Uma colega percebeu sua agitação e disse: “Clara, sua mochila estava fechada, então não mexemos em suas coisas. Está tudo lá”.

Naquele momento, Clara percebeu que não havia criado a mínima oportunidade para ser acolhida pelo grupo. Havia se traído mais uma vez. Precisava parar de pensar.

15.10.07

Como me tornei leitora

O ritual da leitura é acolhedor. Essa é a imagem que guardo da relação que minha avó tinha com os livros. Deitada de lado na cama, ela se apoiava em um dos braços, enquanto o outro conduzia o dedo indicador molhado de saliva, que passava suavemente as páginas do livro, com a ajuda do polegar. Eu ficava na poltrona do quarto, de frente para sua estante de livros, intrigada com sua concentração. Então ia até a estante para folhear alguns livros. Quem sabe descobriria o mistério que ela parecia desvendar enquanto lia.

A cada visita a vó Ana, saía com um livro emprestado. Meu encanto começou quando ela contava histórias para mim e minhas irmãs. Sair do mundo real me confortava. Quando já estava no colegial, e já havia sido substituída pelos primos mais novos nas sessões de contação de histórias de vó Ana, comecei a ajudá-la a preencher as palavras cruzadas dominicais do jornal A Tarde, com a ajuda de seus dicionários.

Daí foi apenas um passo para me interessar pelos livros de sua estante. O primeiro que li foi "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, para cumprir os deveres escolares. Em seguida, Lygia Fagundes Telles. Minha avó adorava o conto “Antes do baile verde”, e eu queria saber por quê. Em seguida, peguei um livrinho amarelado de contos de Oscar Wilde, e assim fui tomando gosto pela leitura.

Quando já estava mais crescida, chamou-me a atenção um livro que ficava escondido bem no canto da estante, chamado “Diário de um Ladrão”, de Jean Genet. Perguntei a minha avó se era bom, ela disse que a história tinha muita violência e sexo, e por isso não havia gostado muito. Mesmo assim, matei a curiosidade adolescente.

Seu livro preferido era mesmo Madame Bovary, que também peguei emprestado, novamente para entender por que minha avó gostava tanto, falava dele com prazer. Percebi que ela se identificava com a personagem, afinal, já era uma feminista antes mesmo da queima de sutiãs. Separou-se do meu avô em uma época em que o casamento ainda era uma instituição indestrutível, ainda que fosse mantido apenas na fachada.

Vó Ana também escreve poesias e contos. Minhas irmãs não se interessavam tanto quanto eu por seus escritos, o que me leva a acreditar que todo ser é composto por uma parcela de herança, outra de adaptação e outra de algo bem particular, que forma sua personalidade, independente dos genes e do meio onde vive. A quem quiser, chame isso de alma.

Minha mãe também escreve, mas é outra espécie de texto, quase um cordel, com rimas fáceis e histórias engraçadas, baseadas em acontecimentos da vida real. Basta dar-lhe uma palavra que ela logo trata de compor uma rima. Sua veia repentista está ligada ao seu gosto pelas notícias, especialmente as que ouve no rádio da cidade, as quais transforma em crônicas deliciosas enquanto cozinha, ao recontá-las e reinventá-las de forma cômica para a família e a faxineira.

Gosto em especial de um de seus versos, muito simples, mas que me diz tudo sobre ela:

Há dias em que não quero
Ser gente nem bicho
Ter vontade ou orgulho
Preguiça ou capricho
Há dias em que só quero
Sentar e ficar sozinha
Ver o vento me levar
Qual folha bem sequinha

Minha avó publicou dois livros com seu próprio dinheiro. Já minha mãe não teve ganas de virar escritora, lembro-me de tê-la ouvido dizer que queria ser publicitária. Eu acabei entrando no jornalismo, influenciada pelas referências das duas grandes mulheres da minha vida. Hoje, meu sonho é ter uma editora. Quem sabe assim possa transformar pessoas como elas, que não puderam ir mais adiante devido às suas limitações financeiras e geográficas, em disseminadoras de leitura.