15.10.07

Como me tornei leitora

O ritual da leitura é acolhedor. Essa é a imagem que guardo da relação que minha avó tinha com os livros. Deitada de lado na cama, ela se apoiava em um dos braços, enquanto o outro conduzia o dedo indicador molhado de saliva, que passava suavemente as páginas do livro, com a ajuda do polegar. Eu ficava na poltrona do quarto, de frente para sua estante de livros, intrigada com sua concentração. Então ia até a estante para folhear alguns livros. Quem sabe descobriria o mistério que ela parecia desvendar enquanto lia.

A cada visita a vó Ana, saía com um livro emprestado. Meu encanto começou quando ela contava histórias para mim e minhas irmãs. Sair do mundo real me confortava. Quando já estava no colegial, e já havia sido substituída pelos primos mais novos nas sessões de contação de histórias de vó Ana, comecei a ajudá-la a preencher as palavras cruzadas dominicais do jornal A Tarde, com a ajuda de seus dicionários.

Daí foi apenas um passo para me interessar pelos livros de sua estante. O primeiro que li foi "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, para cumprir os deveres escolares. Em seguida, Lygia Fagundes Telles. Minha avó adorava o conto “Antes do baile verde”, e eu queria saber por quê. Em seguida, peguei um livrinho amarelado de contos de Oscar Wilde, e assim fui tomando gosto pela leitura.

Quando já estava mais crescida, chamou-me a atenção um livro que ficava escondido bem no canto da estante, chamado “Diário de um Ladrão”, de Jean Genet. Perguntei a minha avó se era bom, ela disse que a história tinha muita violência e sexo, e por isso não havia gostado muito. Mesmo assim, matei a curiosidade adolescente.

Seu livro preferido era mesmo Madame Bovary, que também peguei emprestado, novamente para entender por que minha avó gostava tanto, falava dele com prazer. Percebi que ela se identificava com a personagem, afinal, já era uma feminista antes mesmo da queima de sutiãs. Separou-se do meu avô em uma época em que o casamento ainda era uma instituição indestrutível, ainda que fosse mantido apenas na fachada.

Vó Ana também escreve poesias e contos. Minhas irmãs não se interessavam tanto quanto eu por seus escritos, o que me leva a acreditar que todo ser é composto por uma parcela de herança, outra de adaptação e outra de algo bem particular, que forma sua personalidade, independente dos genes e do meio onde vive. A quem quiser, chame isso de alma.

Minha mãe também escreve, mas é outra espécie de texto, quase um cordel, com rimas fáceis e histórias engraçadas, baseadas em acontecimentos da vida real. Basta dar-lhe uma palavra que ela logo trata de compor uma rima. Sua veia repentista está ligada ao seu gosto pelas notícias, especialmente as que ouve no rádio da cidade, as quais transforma em crônicas deliciosas enquanto cozinha, ao recontá-las e reinventá-las de forma cômica para a família e a faxineira.

Gosto em especial de um de seus versos, muito simples, mas que me diz tudo sobre ela:

Há dias em que não quero
Ser gente nem bicho
Ter vontade ou orgulho
Preguiça ou capricho
Há dias em que só quero
Sentar e ficar sozinha
Ver o vento me levar
Qual folha bem sequinha

Minha avó publicou dois livros com seu próprio dinheiro. Já minha mãe não teve ganas de virar escritora, lembro-me de tê-la ouvido dizer que queria ser publicitária. Eu acabei entrando no jornalismo, influenciada pelas referências das duas grandes mulheres da minha vida. Hoje, meu sonho é ter uma editora. Quem sabe assim possa transformar pessoas como elas, que não puderam ir mais adiante devido às suas limitações financeiras e geográficas, em disseminadoras de leitura.