26.11.08

Um trem, um homem, um rio


Clara voltava do sítio naquele dia. Tinha os olhos fixos na plantação de milho, que a seguia por todo o caminho. Como era gostoso viajar de trem e pensar... Clara pensou tanto durante a viagem que chegou a imaginar como seria se tivesse nascido homem. Não, não desejava as mulheres. Ao contrário, queria ser homem em alguma outra vida para não ter que sofrer das dores femininas.

Se fosse um deles, seria, em uma palavra, descente. Como os rios. Imaginava-se alto. Mas teria imperfeições físicas que fariam toda a diferença – braços mais longos que o necessário, falanges grossas e mal acabadas, olhos fundos demais, barba cheia de buracos e uma cicatriz do lado do olho esquerdo. Teria uma natureza aparentemente tranqüila, mas, lá por dentro, guardaria seus redemoinhos. Carregaria consigo apenas coisas leves. Seria justo, sim, muito justo. Saberia ver, ouvir, pedir perdão. E choraria, sempre que tivesse oportunidade.

2.11.08

Silêncio

Clara estava chateada com o rumo das coisas. Era como se todas as pessoas com quem convivia estivessem escorrendo entre os seus dedos, como um bolo molhado de areia. Resolveu então viajar para o sítio, mesmo sabendo que isso não mudaria nada. Lá havia uma lagoa cor de guaraná, onde Clara costumava mergulhar para ficar em silêncio. A tarde de sol deixava a água bem iluminada. Dava até para ver os peixes, que se aproximaram quando ela chegou, como se pedissem atenção. Clara estendeu a mão dentro d'água para atrair os peixinhos. E foi então que se deu conta de que não estava só.

22.10.08

Estranhamente imóvel

Gente, mas que loucura toda é esta? Alguém aqui pode me explicar? Aliás não, não, melhor não! Prefiro vaquinhas no pasto a investir no mercado de capitais. E esta pérola faz-me sentir mais normal:

"A economia de Nova Iorque e de outros importantes centros financeiros foi ameaçada pela rápida queda do volume negociado. Mas o resto do mundo permaneceu estranhamente imóvel." (David Harvey)

Por quê?

Já aconteceu de pensar em algo e, logo depois, ler alguma coisa a respeito do que pensou? Na carroceria de um caminhão, em um outdoor ou em um jornal velho? Pois foi o que aconteceu com Clara.

Naquele dia de manhãzinha, a caminho para a aula, perguntava-se ela por que os dias estavam passando tão depressa. E não é que o professor pediu a leitura de um texto sobre o assunto? O autor, David Harvey, falava assim:

"Tem havido várias respostas à ação da compressão do tempo-espaço. A primeira linha de defesa é a fuga para um tipo de silêncio exaurido, blasé ou encouraçado (...). A segunda reação equivale a uma negação voluntariosa da complexidade do mundo (...). A terceira resposta (...) é uma tentativa de extrair ao menos um mundo aprrensível da infinidade de mundos possíveis que nos são mostrados diariamente na tela da televisão. (...) A quarta resposta tem sido tentar montar no tigre da compressão do tempo-espaço mediante a construção de uma linguagem e de imagens capazes de espelhá-la e, quem sabe, dominá-la."

Clara começou a pesquisar sobre o assunto, e encontrou um texto interessante na internet. Mas continuou sem a sua resposta.

14.10.08

Minha grande dúvida atual

Por que será que as pessoas são tão apegadas? Algumas ao corpo, outras às roupas, outras às suas atividades e obras diárias? Outras ainda, como eu, apegadas aos outros e aos sentimentos? E aquelas, coitadas, que não se descolam da razão? Se, no fim de tudo, restará apenas pó?

Sobre o Trabalho

Clara passou a tarde lendo, lendo... coisas sobre psicologia e trabalho, de Christine Revuz. Anotou em seu diário algumas idéias que lhe chamaram a atenção:

“O homem, ser de necessidade, mas também de desejo, busca um equilíbrio precário em sua vida psíquica através de objetos como o trabalho, suscetíveis de apaziguar suas contradições.”

"Quando a gente encontra as pessoas, de imediato lhes perguntamos: 'e você, o que é que faz da vida?' Neste momento, que resposta podemos dar? Podemos assumir a resposta que corresponde ao trabalho que fazemos?"

"Será que no desejo de meus pais eu sou uma pessoa de bem se digo: 'sou técnico na Rolex' ou isso não vai ser bem visto, de jeito nenhum?"

"O que faz com que meu vizinho, na montanha, no silêncio, passe todos os dias sozinho a fabricar cerâmicas? É uma escolha. O que acontece quando ele maneja a terra, o que faz com que, no caso dele, possa encontrar plenitude naquela atividade, e isso após ter tido uma formação em Altos Estudos Comerciais? É enigmático."

“O trabalho permite as operações psíquicas ligadas ao estatuto de adulto: o acesso a autonomia material; o reconhecimento pelo que se faz; a participação na construção de um viver junto.”

“...se fabrica a sociedade pela maneira de se trabalhar, pela maneira de dar o troco, de acolher os doentes, de atender o telefone, a gente está sempre criando o mundo.”

10.6.08

Should I stay or should I go?

Clara nunca havia tido tantas dúvidas. Tamanha era sua falta de atitude... Não sabia se pulava da montanha em vôo livre, ou se descia pelo outro lado, com equipamentos seguros e pés no chão.

Será que era problema de idade? Estava mais medrosa, portanto mais adulta? Não queria vincular as duas coisas, para que isso não virasse um paradigma. Mas haveria outra explicação?

Poxa, antes era tão fácil decidir as coisas...

Clara sempre se viu pronta para os riscos, e agora estava ali, sem conseguir dormir. Porque queria produzir algo mais útil. Que fizesse sentido.

15.4.08

Bom dia!

sei que você está cansado
que você está gripado
que você está estressado
mas isso não justifica
uma vida de lamúrias e lamentações

uma hora é porque perdeu o trem
outra é porque não está apaixonado
definitivamente
seu problema é de mentira
e é todo seu

se é que vale de alguma coisa
digo que eu,
cá com minhas angústias,
logo tenho procurado
ficar em paz

é assim, rápido,
a crise vai embora
de um dia para o outro
porque tem tanta gente aí
com problemas de verdade

1.4.08

Uma história para deletar

De volta a casa, Clara manteve-se concentrada em suas reflexões. Resolveu que tomaria uma atitude e procuraria sua amiga Deni, que não via há muito tempo.

Em um impulso, Clara sacou o telefone. Deni atendeu desconfiada, como se não acreditasse que fosse Clara. Ou sei lá se não estava querendo evitar a ligação. Clara fez questão de se identificar, para quebrar o gelo, apesar de saber que Deni reconheceria de longe o seu jeito de falar.

"Oi, tô ligando porque a gente nunca mais se viu, e eu ainda nem conheci seu filho... Como ele está? A gente precisa se ver, vamos marcar?".

Foi então acolhida pela voz falsamente animada de Deni, que, em um impulso, marcou o encontro naquele dia mesmo, porque no fim de semana teria outros compromissos.

"Será que vou incomodar?" Clara estava convencida disso, mas precisava testar se ainda havia um resquício de amizade naquela relação.

Chegou à casa de Deni na hora marcadíssima, mas passou um tempo na padaria da esquina para não parecer ansiosa. Quando resolveu tocar o interfone, seu dedo indicador tremia. Deu-se conta de que isso não acontecia apenas quando estava apaixonada.

O prédio tinha três andares, Clara subiu os três lances de escada respirando fundo. Deni esperava com a porta aberta, e Clara não teve tempo de se recuperar da falta de ar. Abraçou a amiga daquele jeito, com o coração disparado.

Deni foi calorosa, porém não sabia bem o que dizer, falava de forma desencontrada. Clara limitou-se a ouvi-la enquanto direcionava-se para a criança, cacheada e compenetrada. Mexeu nos caracóis do menino e se sentou ao seu lado, para conseguir olhar Deni de frente.

O olho de Deni estava vermelho, teria ela usado alguma droga? Estava tão estranha, distante... Gesticulava demasiadamente, olhava para a criança, depois para a varanda, e quando alguma coisa distraía sua atenção, ela parava de falar e mudava de assunto sem mais por quê.

Clara também não sabia o que falar, pois tudo que dissesse soaria desinteressante naquele contexto. Depois de meia hora, decidiu partir. Deixou a porta de Deni para trás, completamente desmemoriada.