26.11.08

Um trem, um homem, um rio


Clara voltava do sítio naquele dia. Tinha os olhos fixos na plantação de milho, que a seguia por todo o caminho. Como era gostoso viajar de trem e pensar... Clara pensou tanto durante a viagem que chegou a imaginar como seria se tivesse nascido homem. Não, não desejava as mulheres. Ao contrário, queria ser homem em alguma outra vida para não ter que sofrer das dores femininas.

Se fosse um deles, seria, em uma palavra, descente. Como os rios. Imaginava-se alto. Mas teria imperfeições físicas que fariam toda a diferença – braços mais longos que o necessário, falanges grossas e mal acabadas, olhos fundos demais, barba cheia de buracos e uma cicatriz do lado do olho esquerdo. Teria uma natureza aparentemente tranqüila, mas, lá por dentro, guardaria seus redemoinhos. Carregaria consigo apenas coisas leves. Seria justo, sim, muito justo. Saberia ver, ouvir, pedir perdão. E choraria, sempre que tivesse oportunidade.

2.11.08

Silêncio

Clara estava chateada com o rumo das coisas. Era como se todas as pessoas com quem convivia estivessem escorrendo entre os seus dedos, como um bolo molhado de areia. Resolveu então viajar para o sítio, mesmo sabendo que isso não mudaria nada. Lá havia uma lagoa cor de guaraná, onde Clara costumava mergulhar para ficar em silêncio. A tarde de sol deixava a água bem iluminada. Dava até para ver os peixes, que se aproximaram quando ela chegou, como se pedissem atenção. Clara estendeu a mão dentro d'água para atrair os peixinhos. E foi então que se deu conta de que não estava só.