17.12.09

Sujeito digital

Tenho treinado o desapego desde que sai da casa dos meus pais, há 13 anos. A cada vez que mudamos de lugar, nos despedimos das pessoas e doamos objetos que não cabem na mala. Olha que já mudei seis vezes nesse período!

Ontem matutei sobre isso, depois de perder um celular que me custou várias parcelas no cartão de crédito. Fiquei pensando se o que estava sentindo era apego, raiva, preocupação com grana... Tudo que o Budismo chama de “mentes negativas”. Claro que estava irritada por ter jogado dinheiro no lixo. Mas não era só.

12.12.09

Perguntas que me calam: Copenhagen


Para que embalar duas vezes um mesmo produto? Os presentes de Natal vêm num saco e numa caixa ainda por cima... Os sucrilhos, aparentemente tão inocentes, também carregam consigo esse mesmo mal.

14.9.09

Clara ganha e logo perde seu superpoder

Um belo dia, Clara saiu com sua máscara na mochila. Queria só ver a cara dos colegas ao encontrá-la mascarada na escola, na hora do recreio.

E assim foi: sentou-se no banco do parque vestindo a máscara que fizera com papel machê. Era certo que todos zombariam (ah, essas crianças são umas pestes, a gente sabe!). Mas Clara se fez de desentendida. E, pela primeira vez, seu rosto não enrubesceu. Era como se tivesse ganhado um superpoder com a máscara, não lá muito nobre no mundo dos adultos: a indiferença.

Porém, como tudo que vai contra nossa natureza, essa sensação durou pouco... Durou até um garoto sentar-se ao seu lado, usando nada menos do que... Uma máscara. Do Batman. Clara soltou um sorriso nervoso e prendeu a respiração, só de pensar que ele teria descoberto seu segredo, sua intenção. Então seu rostou pegou fogo novamente.

13.9.09

Os sonhos e a máscara na ficção de Clara

Compartilho aqui duas obras que contribuem para a construção de Clara Pálida. Esta justifica por que uso os sonhos como matéria-prima da ficção:

“...os sonhos são experiências que parecem muitas vezes mais reais que a vida imediata. O mesmo podemos dizer da ficção, ou desses modelos ficcionais que atingem o ápice de seu poder expressivo e simbólico – não só parecem mais reais que a vida, como dão a impressão de uma completude e integridade jamais alcançadas pela experiência imediata." [Ficção, Comunicação e Mídias, de Cristina Costa Castilho]

E esta me ajuda a moldar a máscara de Clara como metalinguagem da ficção:

“A máscara separa os participantes [da ficção] dos não participantes e reforça a natureza especial da realidade compartilhada.” [Hamlet no Holodeck, de Janet Murray]

Como assim? Na próxima história de Clara, essas idéias ficarão mais evidentes.

10.9.09

Review História do Brasil

Este texto é de Maria Cristina, senhora minha mãe. Revela muito bem sua capacidade de reportar histórias bizarras, que ela normalmente ouve no rádio da cozinha.

"Esta História do Brasil, contada e recontada, é de uma chatice ímpar! Não sei quem criou tantas datas, tantos heróis, tantos acontecimentos bizarros. A começar pela historia do nosso País, desde seu descobrimento ele já se encontrava descoberto pelos índios. A coisa na verdade começou assim:

8.9.09

Clara by Paulinho Couto


Esta é Clara imaginada por Paulinho Couto. Desenhista da minha top list, ao lado de Will Eisner.

Acompanho o trabalho de Paulinho desde 1996, quando o conheci na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Impressionei-me desde então com sua destreza para o desenho. Durante as aulas, rapidinho ele riscava todo o caderno, e enchia tudo de movimento e sentido. Eu ficava pasma. Afinal, demoro tanto pra fazer uma única linha "reta"...

Este desenho ilustra perfeitamente o post Quanta Flor, por isso aparece lá também. A propósito, ontem vi o filme Coraline. Assim como Clara, a personagem passeia por um jardim super colorido. Desconfio que as flores sejam recorrentes no mundo da fantasia.

Em breve, Clara em outras versões.

29.8.09

O tempo pára, sim!

Clara entedia-se facilmente. É que o tempo parece parar de vez em quando, já percebeu? E então se abre uma grande oportunidade para pensar em coisas que levam a lugar algum. Coisas que deveriam permanecer escondidas no fundo de uma caixa preta. Nessas horas que não passam, a vontade de Clara é dormir, e só acordar quando o tempo resolver andar de novo.

11.8.09

Meu partido é um coração partido

Descobri tarde que o melhor título para o post anterior seria o deste post. Pois Cazuza traduz tudo isso:

Meu partido
É um coração partido
E as ilusões
Estão todas perdidas
Os meus sonhos
Foram todos vendidos
Tão barato
Que eu nem acredito
Ah! eu nem acredito...

Meus heróis
Morreram de overdose
Meus inimigos
Estão no poder
Ideologia!
Eu quero uma prá viver
Ideologia!
Eu quero uma prá viver...

Pois aquele garoto
Que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Agora assiste a tudo
Em cima do muro
Em cima do muro...

10.8.09

A literatura e a construção das mentalidades

De manhã, enquanto esperava o trem, pensava sobre o fim das ideologias. Desafio: quem aqui defende verdades definitivas? Quem só vê o mundo com os óculos de Descartes? Ou de Marx? Ou Diogo Mainardi? E comecei a questionar por que não acredito mais em partidos políticos...

Como a gente faz uns links esquisitos quando pensa! Passou-me pela cabeça a jornalista e ex-vereadora Soninha, figura que me inspira confiança, pela sua história de vida... E que não é mais do PT, tampouco do PSDB. Na home do seu site, nem o nome do seu partido aparece. Tem estrelinhas vermelhas lá... Saudades do PT? Hum... Depois de fuçar, escarafunchar, só fui achar no seu blog a primeira citação ao PPS. E comecei a crer que talvez eu não esteja sozinha com esta dúvida: que partido tomar na vida?

26.7.09

Ei, você, pode me ouvir?

Ontem falamos sobre o silêncio. Paulo contou que passara dez dias calado, em um retiro. Claudia ouvia, taciturna, a história de Paulo.

Apesar do esforço e certo fastio, Paulo sobrevivera à experiência. Soube se comunicar com gestos, sem dizer palavra, quando começou a limpar o quarto e os colegas juntaram-se voluntariamente a ele. Também soube a hora de comer, a hora de dormir. E aprendeu que palavras são desnecessárias e podem até machucar.

Difícil calar, se as pessoas não abrem mão de seus celulares. Afinal, não se pode perder mais tempo, nem na fila do cinema. Então falemos! E não basta falar, é preciso se fazer ouvir, aumentar a voz ao telefone, para que todos saibam que levamos uma vida menos ordinária.

Em nossa rede de relações, conhecemos ao menos uma criatura que nos atropela quando ainda ensaiamos abrir a boca. Mesmo calado, esse sujeito parece não prestar a mínima atenção no que dizemos.

E quem vai nos ouvir? Claudia?

22.7.09

Perguntas que me calam: Episódio no café

Você pede um expresso, estende o dinheiro, e logo começa a conversar com o amigo solidário que lhe acompanha na fila.

O caixa interrompe o papo pra perguntar:
"Mais alguma coisa?"
"Algo mais?"
"Só isso?"

= /

Suco de laranja

Acabo de ler uma passagem da vida de Sartre que me fez lembrar o meu amigo Paulo Araújo (a quem prefiro chamar de "Fran"), grande intelectual Potiguar, Secretário de Comunicação da Prefeitura de Natal e editor do blog Coluna do Francisco:

"Ao passar na capital [França], poucos meses mais tarde, Sartre e Simone de Beauvoir encontraram, em um café de Montparnasse, Raymond Aron, que voltava de Berlim, onde estudara a doutrina fenomenologista de Edmund Husserl. Simone relataria este encontro em suas memórias. Aron, no meio da conversa, enfatizou: "Está vendo, meu amigo", apontando para um copo, "se você é um fenomenologista, poderá falar deste coquetel e estará falando de filosofia". Sartre empalideceu de emoção diante da frase. Era exatamente o que ambicionava havia anos: falar das coisas como as tocava..." (SARTRE. A Idade da Razão. Rio de Janeiro: Nova Cultural, 1996)

Explico:

Certo dia, eu, Fran e nossa amiga Vero “do Recife” fomos tomar um café antes do cinema, na Rua Augusta. Subitamente, Fran pulou da cadeira:

- Vamos, minha gente, a sessão vai começar, estamos super atrasados!"

Apaulistanou, amigo? Não exitei em provocá-lo:

- Fran, por que tanta pressa? Que tal olhar para este suco de laranja e pensar: isto é só um suco de laranja?!

Desde então, Fran não perde a oportunidade de fazer piada, criou uma caricatura dessa situação, a que ele chama de experiência conceitual.

Bons tempos...


Foto: Brassaï [Jean Paul Sartre no Café de Flore, 1944].

20.7.09

Signos

Um dos hobbies preferidos de Clara era colecionar coisas. Colecionava figurinhas, guardava inclusive as repetidas em uma caixa de papelão, em bolos amarrados com elástico.

Passava horas rearrumando os montinhos, recriando categorias. Aproveitava para reler as mensagens das figurinhas, curiosa para saber quem haveria escrito aquelas frases tão estúpidas:

"A vida é uma grande piada se você for um bom camarada."
"Depois da tempestade vem um arco-íris de felicidade."

Ora, o que quer dizer tudo isso, se nas ruas pessoas morrem de fome e frio?

4.7.09

Lar, labor e lazer

“Para o autor [Oldenburg], há três tipos de lugares que são importantes na vida de um individuo. O lar, que consiste em um primeiro lugar, onde está a familia, o trabalho, que é o segundo lugar, e os parques, pubs e espaços de lazer, que consistem nos terceiros lugares, aqueles onde os inidviduos vão para construir laços sociais.” (Recuero, 2009: 136)

24.6.09

Idéia de máscara

Quando Clara usou sua máscara pela primeira vez, sentiu-se tão confortável! Agora ninguém mais riria dela, se ficasse ruborizada. Mas o que a deixava assim, tão envergonhada? Ah! Tanta coisa... Absurdos da vida... Uma vez seus pais brigaram em plena rua, a tapas. Pessoas andavam rapidamente, mas ela tinha certeza que TODO MUNDO VIU! “Por que só agora tive essa idéia de máscara?”, cobrou-se Clara.

Relações

Dois textos meus em dois blogs de dois queridos amigos!

. Carta da leitora
. Somos cegos ao óbvio

Paulo e Bela, obrigada por compartilhar!

11.6.09

Receita de Clara

Resgate aquele monte de papel guardado, meio amarelado, rabiscado a lápis de cera. Reveja os bonecos com cabeça grande e pernas de palito que você, sim, você mesmo desenhou - criativo, desde que nasceu.

Agora pique tudo, com paixão. Isso! Mas, calma, não descarte sua infância no lixo, não. Jogue tudo num balde d'água. No dia seguinte, você obterá um caldo. Um caldo bege. Então peneire o tal, até obter uma pasta, e acrescente bastante cola Tenaz.

Foi assim que Clara fabricou sua própria máscara...

10.6.09

L'Enfant Terrible

Clara era magrela. Tinha canelas finas e pele rosada. Aliás, gostava de cor-de-rosa, no quarto, na roupa, na vida. Mas tinha pavor a ficar com a cara mais rosa do que já era. Isso acontecia quando falavam coisas estranhas, ou quando olhavam muito pra ela.

Um belo dia, Clara pediu à mãe um rosto assim, tipo bege. Uma máscara, se não tivesse outro jeito. Aí a babá falou: “menina, cuidado com o que você deseja!” Aos oito anos, ela não entendeu a bronca. Entenderia anos depois...

9.6.09

Ainda sobre o tempo

Alan Ligthman, em "Os Sonhos de Einstein":

“Numa pequena biblioteca da escola politécnica de Zurique, um rapaz e seu orientador estão discutindo o trabalho de doutoramento do rapaz. É dezembro, e o fogo queima na lareira sobre cuja moldura há uma prateleira de mármore branco. O jovem e seu professor estão sentados em confortáveis cadeiras de carvalho ao lado de uma mesa redonda coberta de páginas preenchidas por cálculos e mais cálculos. A pesquisa tem sido difícil. Uma vez por mês, durante os últimos dezoito meses, o jovem tem se reunido com seu professor nesta mesma sala. Ele pede orientação e esperança, estuda por mais de um mês, e volta com novas questões. O professor tem sempre lhe dado respostas. Hoje, novamente, o professor explica. Enquanto o professor está falando, o jovem olha pela janela, observa como a neve se mantém agarrada ao espruce ao lado do prédio, imagina como se virara sozinho depois que se formar. Sentado em sua cadeira, o jovem dá um passo hesitante no tempo, apenas minutos rumo ao futuro, arrepia-se com o frio e a incerteza. Recua. Muito melhor é ficar neste momento, ao lado do calor da lareira, ao lado da ajuda calorosa do orientador. Muito melhor é parar o movimento do tempo. E assim, neste dia na pequena biblioteca, o jovem estaciona. Seus amigos passam por ele, detêm-se por um instante para vê-lo parado neste momento e continuam rumo ao futuro cada qual em seu ritmo”

Sobre a ternura

Do filósofo colombiano Luis Carlos Restrepo, em "O Direito à Ternura":

“O que nos caracteriza e diferencia da inteligência artificial é a capacidade de emocionar-nos, de reconstruir o mundo e o conhecimento a partir dos laços afetivos que nos impactam.”

“Nós cidadãos ocidentais sofremos uma terrível deformação, um pavoroso empobrecimento histórico que nos levou a um nível jamais conhecido de analfabetismo afetivo. Sabemos do A, do B e do C; sabemos do 1, do 2 e do 8; sabemos somar, multiplicar e dividir, mas nada sabemos de nossa vida afetiva, razão pela qual continumaos exibindo grande entorpecimento em nossas relações com os outros, campo em que qualquer uma das culturas chamadas exóticas ou primitivas nos supera de longe.”

“... fazemos uma defesa exagerada da autonomia, entendida como não depender dos outros para não ver cortadas as nossas possibilidades de crescimento.”

“... continuamos destruindo a possibilidade de ternura para ver realizada as nossas ambições.”

“A caricia é uma figura que tem estrita relação com o uso do poder, podendo-se dizer que, enquanto o autoritarismo é um modelo político agarrador e ultrajante, a democracia é uma forma de carícia social onde nos abrimos à co-gestão e à práxis incerta, sem as quais é impossível construir uma verdade com o outro.”

“... os modelos hierarquicos se reproduzem nas atividades políticas e administrativas, tiranizando a vida diária.”

15.4.09

A velocidade das coisas

As meninas falavam sem parar sobre um filme “muito engraçado”. “Será que todo mundo precisa rir das mesmas histórias?”, perguntou-se Clara, antes de se distrair completamente da conversa das amigas.

Clara estava tão irritada com o nível de detalhes da narração, que ficou enjoada. Era um sinal de que começaria a ver tudo em câmera lenta. E foi justamente o que aconteceu.

O que se seguia ao enjôo era dramático. Clara só conseguia atentar para o movimento dos lábios das pessoas. E já não prestava mais atenção no que diziam. Automaticamente, um risinho torto congelava-se em seu rosto.

Clara deslocou o olhar para a janela do trem em movimento, tentando se conter. Em seguida, mirou a rua paralela, onde os carros corriam mais lentamente do que o trem. Não via a hora de chegar, pois temia aparentar sua total distração.

Parecia ter passado uma vida, até que o trem parou. Clara fingiu que teria de descer ali mesmo, uma estação antes, com a desculpa de passar em uma livraria.

Todo esse devaneio a seguiu pelo caminho, até que algo finalmente conseguiu capturá-la. Um beija-flor, que tremulava sobre um arbusto florido. Clara forçou um olhar câmera lenta para contar o sobe-e-desce das asas. E então riu de si mesma.

22.3.09

Don Quixote de la Mancha

"Resumindo, ele se enterrou tanto em seus livros que passou as noites lendo desde o crepúsculo até a alvorada e os dias desde o amanhecer até o escurecer; e então de pouco dormir e muito ler seu cérebro secou e ele perdeu o juízo. Ele preencheu sua mente com tudo o que lera nos livros com encantamentos, disputas, batalhas, desafios, ferimentos galanteios, amores, tormentos e outros disparates impossíveis; e impregnou tão profundamente sua imaginação com a crença de que todas as coisas imaginárias que lera eram reais, que... decidiu... tornar-se cavaleiro errante e viajar pelo mundo de cavalo e armadura em busca de aventuras."

26.2.09

Dormindo com um vampiro

Adriana trabalha do meu lado. Ela é a primeira personagem do “Leitor insone”, porque foi a história dela que me fez criar esta seção.

Tudo começou assim: durante dois dias seguidos, Adriana apareceu-me com os olhos vermelhos e inchados, quase uma vampira. E não é que tinha a ver com vampiros a sua expressão? É que essa moça apressada perdera as últimas noites lendo, lendo, lendo, um único livro de 400 páginas.

Refiro-me ao “Crepúsculo” (Twilight), de Stephenie Meyer, que inspirou o filme de mesmo nome, em cartaz nos cinemas, e uma série de TV nos EUA. Como se não bastasse terminar o primeiro livro da coleção (Twilight Series), Adriana ainda comprou os próximos, New Moon, Eclipse e Breaking Dawn. E passou mais algumas noites em companhia deles.

O que tanto atraiu Adriana desse jeito assim, que não largava a leitura? Preciso considerar que minha vizinha de mesa é uma figura um tanto agitada, fala rapidinho, se interessa por tudo que lhe deixem na mão ou que lhe contem (e sempre dá sua opinião sobre o que lhe contam, vale dizer). Era de se esperar que, durante a noite, ela não fosse diferente.

Vamos dizer que seus sonhos noturnos foram seguidamente traídos por uma espécie de sonambulismo literário, ou posso até chamar de meditação. Afinal, o que é a meditação, senão a arte de focar o pensamento? E não era isso que Adriana estava fazendo? Uma pessoa que conversa consigo mesma deve pensar bastante, então imagina quanto pensamento ela tinha que deixar de lado para se concentrar somente nos livros!

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Aliás, que história é essa, tão interessante para Adriana? Conta ela que é uma fábula de amor entre um vampiro e uma humana. “Você pode dizer que é água com açúcar, mas o interessante é a forma como a autora escreve sobre a impossibilidade de um amor”, defende Adriana. Vale dizer que toda a história é contada pela mocinha apaixonada, mas a autora já está providenciando um quinto livro, desta vez sob o ponto-de-vista do vampiro.

Adriana explica que os livros da série reconstroem o mito do vampiro, pois nessa saga ele não morre por qualquer coisa. A luz do sol, por exemplo, não é mortal, apenas reforça a cor reluzente da pele dos vampiros. E é óbvio que eles não querem ser percebidos no meio da multidão, por isso fogem dela como o diabo da cruz.

Bom, acho o Drácula de Bram Stocker charmosíssimo, então tendo a negar todas as outras espécies de vampiros... Mas confesso que Adriana despertou meu interesse pelos livros de Meyer, sem eu nunca ter lido nem a orelha deles.

+ Drácula de Bram, só para relembrar.

20.2.09

Leitor insone

Segundo o escritor irlandês James Joyce, o "leitor ideal" é aquele que sofre de uma "insônia ideal". Mais tarde, o italiano Umberto Eco completou: o leitor ideal, ou "leitor-modelo", é aquele que o autor tem em mente quando escreve. Tudo isso para dizer que o leitor é o personagem principal desta nossa coluna.

Vale mais esta explicação: amamos leitores que trocam o sono por uma boa leitura, ou que fazem do sonho sua forma de ler o mundo. Porém, não buscamos aqui o "leitor ideal", que interpreta tudo exatamente como o autor planeja. Os próprios escritores sabem que o leitor é um bichinho cheio de personalidade, faz o que quer e bem entende do texto. Bom, não? Afinal, que monótono seria se todo mundo pensasse igual!

Então vamos falar aqui de outra espécie de leitor, apresentado por Eco como o "leitor-empírico". Explica ele, em seu livro Seis passeios pelos bosques da ficção, que "os leitores empíricos podem ler de várias formas, e não existe lei que determine como devem ler, porque em geral utilizam o texto como um receptáculo de suas próprias paixões..."

Entendeu?

  • Se não, mande um comentário que a gente continua falando sobre esse assunto.
  • Se sim, siga em frente com nossas histórias de leitores insones, apaixonados, fabulosos!

19.2.09

Clara Pálida quando jovem

A partir de agora, vou contar a história da infância de Clara. Quem sabe assim você entenda por que ela é o que é, aos 18 anos.

Você precisará ser bastante astuto, já que nem tudo na vida de uma pessoa tem uma explicação muito óbvia. O que posso garantir é que você vai saber por que seu apelido era Clara Pálida...

Sei que você não merece essa mudança temporal tão brusca na narrativa... Por isso, vou presenteá-lo com uma foto de Clara aos 16 anos. Foi o ano em que tudo mudou...

13.1.09

Quanta flor


O que poderia estar acontecendo no jardim de Clara, que no primeiro dia do ano amanheceu cheio de flores? Alguém haveria plantado tudo durante a noite, enquanto ela sonhava? Ou as sementes que um dia semeara ali - tão velhinhas, coitadas, abafadas debaixo da terra, caladas - resolveram se manifestar em massa, de uma hora pra outra? Seria aquilo uma espécie de rebelião pós-primaveril?

Clara não sabia de nada, mas foi investigar. Examinou primeiro o girassol, pavoroso de tão grande, cheio de fiapinhos pelo caule, e nas pétalas também. O miolo, então, era macroscópico, dava para ver tudo, tudo, até contar o número de polens. Clara teve medo de ser engolida. Mas, pensando bem, o senhor girassol era simpático, não faria nada de mal. Ao contrário, refletia, cheio de si, a luz do dia, não tinha como ficar triste quem passasse por perto.

Logo ao lado, Clara mirou uma planta quieta, não sabia o nome... Tinha folhas e pétalas duras, e flutuava numa poça de água avermelhada. Era de poucos amigos, Clara então não quis nem mexer. Imagina se saísse um inseto esquisito de suas entranhas, que acumulavam pocinhas de barro? Não se atreveria!

Caminhou mais um pouco, e encontrou um cacho de orquídeas apaixonantes, matizadas branco e lilás. Delas, não teve medo, chegou bem perto para percorrer cada detalhe. Todas as flores, além de tão pequenas e cheias de minúcias, tremiam ao passar do vento, o que fazia o passeio visual de Clara ainda mais perturbador.

Fatigada, Clara, enfim, deixou-se cair na grama. Começou a calcular quanto trabalho teria para cuidar de todas aquelas criaturas.