17.12.09

Sujeito digital

Tenho treinado o desapego desde que sai da casa dos meus pais, há 13 anos. A cada vez que mudamos de lugar, nos despedimos das pessoas e doamos objetos que não cabem na mala. Olha que já mudei seis vezes nesse período!

Ontem matutei sobre isso, depois de perder um celular que me custou várias parcelas no cartão de crédito. Fiquei pensando se o que estava sentindo era apego, raiva, preocupação com grana... Tudo que o Budismo chama de “mentes negativas”. Claro que estava irritada por ter jogado dinheiro no lixo. Mas não era só.

12.12.09

Perguntas que me calam: Copenhagen


Para que embalar duas vezes um mesmo produto? Os presentes de Natal vêm num saco e numa caixa ainda por cima... Os sucrilhos, aparentemente tão inocentes, também carregam consigo esse mesmo mal.

13.9.09

Os sonhos e a máscara na ficção de Clara

Compartilho aqui duas obras que contribuem para a construção de Clara Pálida. Esta justifica por que uso os sonhos como matéria-prima da ficção:

“...os sonhos são experiências que parecem muitas vezes mais reais que a vida imediata. O mesmo podemos dizer da ficção, ou desses modelos ficcionais que atingem o ápice de seu poder expressivo e simbólico – não só parecem mais reais que a vida, como dão a impressão de uma completude e integridade jamais alcançadas pela experiência imediata." [Ficção, Comunicação e Mídias, de Cristina Costa Castilho]

E esta me ajuda a moldar a máscara de Clara como metalinguagem da ficção:

“A máscara separa os participantes [da ficção] dos não participantes e reforça a natureza especial da realidade compartilhada.” [Hamlet no Holodeck, de Janet Murray]

Como assim? Na próxima história de Clara, essas idéias ficarão mais evidentes.

10.9.09

Review História do Brasil

Este texto é de Maria Cristina, senhora minha mãe. Revela muito bem sua capacidade de reportar histórias bizarras, que ela normalmente ouve no rádio da cozinha.

"Esta História do Brasil, contada e recontada, é de uma chatice ímpar! Não sei quem criou tantas datas, tantos heróis, tantos acontecimentos bizarros. A começar pela historia do nosso País, desde seu descobrimento ele já se encontrava descoberto pelos índios. A coisa na verdade começou assim:

8.9.09

Clara by Paulinho Couto


Esta é Clara imaginada por Paulinho Couto. Desenhista da minha top list, ao lado de Will Eisner.

Acompanho o trabalho de Paulinho desde 1996, quando o conheci na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Impressionei-me desde então com sua destreza para o desenho. Durante as aulas, rapidinho ele riscava todo o caderno, e enchia tudo de movimento e sentido. Eu ficava pasma. Afinal, demoro tanto pra fazer uma única linha "reta"...

Este desenho ilustra perfeitamente o post Quanta Flor, por isso aparece lá também. A propósito, ontem vi o filme Coraline. Assim como Clara, a personagem passeia por um jardim super colorido. Desconfio que as flores sejam recorrentes no mundo da fantasia.

Em breve, Clara em outras versões.

29.8.09

O tempo pára, sim!

Clara entedia-se facilmente. É que o tempo parece parar de vez em quando, já percebeu? E então se abre uma grande oportunidade para pensar em coisas que levam a lugar algum. Coisas que deveriam permanecer escondidas no fundo de uma caixa preta. Nessas horas que não passam, a vontade de Clara é dormir, e só acordar quando o tempo resolver andar de novo.

11.8.09

Meu partido é um coração partido

Descobri tarde que o melhor título para o post anterior seria o deste post. Pois Cazuza traduz tudo isso:

Meu partido
É um coração partido
E as ilusões
Estão todas perdidas
Os meus sonhos
Foram todos vendidos
Tão barato
Que eu nem acredito
Ah! eu nem acredito...

Meus heróis
Morreram de overdose
Meus inimigos
Estão no poder
Ideologia!
Eu quero uma prá viver
Ideologia!
Eu quero uma prá viver...

Pois aquele garoto
Que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Agora assiste a tudo
Em cima do muro
Em cima do muro...

10.8.09

A literatura e a construção das mentalidades

De manhã, enquanto esperava o trem, pensava sobre o fim das ideologias. Desafio: quem aqui defende verdades definitivas? Quem só vê o mundo com os óculos de Descartes? Ou de Marx? Ou Diogo Mainardi? E comecei a questionar por que não acredito mais em partidos políticos...

Como a gente faz uns links esquisitos quando pensa! Passou-me pela cabeça a jornalista e ex-vereadora Soninha, figura que me inspira confiança, pela sua história de vida... E que não é mais do PT, tampouco do PSDB. Na home do seu site, nem o nome do seu partido aparece. Tem estrelinhas vermelhas lá... Saudades do PT? Hum... Depois de fuçar, escarafunchar, só fui achar no seu blog a primeira citação ao PPS. E comecei a crer que talvez eu não esteja sozinha com esta dúvida: que partido tomar na vida?

26.7.09

Ei, você, pode me ouvir?

Ontem falamos sobre o silêncio. Paulo contou que passara dez dias calado, em um retiro. Claudia ouvia, taciturna, a história de Paulo.

Apesar do esforço e certo fastio, Paulo sobrevivera à experiência. Soube se comunicar com gestos, sem dizer palavra, quando começou a limpar o quarto e os colegas juntaram-se voluntariamente a ele. Também soube a hora de comer, a hora de dormir. E aprendeu que palavras são desnecessárias e podem até machucar.

Difícil calar, se as pessoas não abrem mão de seus celulares. Afinal, não se pode perder mais tempo, nem na fila do cinema. Então falemos! E não basta falar, é preciso se fazer ouvir, aumentar a voz ao telefone, para que todos saibam que levamos uma vida menos ordinária.

Em nossa rede de relações, conhecemos ao menos uma criatura que nos atropela quando ainda ensaiamos abrir a boca. Mesmo calado, esse sujeito parece não prestar a mínima atenção no que dizemos.

E quem vai nos ouvir? Claudia?

22.7.09

Perguntas que me calam: Episódio no café

Você pede um expresso, estende o dinheiro, e logo começa a conversar com o amigo solidário que lhe acompanha na fila.

O caixa interrompe o papo pra perguntar:
"Mais alguma coisa?"
"Algo mais?"
"Só isso?"

= /

Suco de laranja

Acabo de ler uma passagem da vida de Sartre que me fez lembrar o meu amigo Paulo Araújo (a quem prefiro chamar de "Fran"), grande intelectual Potiguar, Secretário de Comunicação da Prefeitura de Natal e editor do blog Coluna do Francisco:

"Ao passar na capital [França], poucos meses mais tarde, Sartre e Simone de Beauvoir encontraram, em um café de Montparnasse, Raymond Aron, que voltava de Berlim, onde estudara a doutrina fenomenologista de Edmund Husserl. Simone relataria este encontro em suas memórias. Aron, no meio da conversa, enfatizou: "Está vendo, meu amigo", apontando para um copo, "se você é um fenomenologista, poderá falar deste coquetel e estará falando de filosofia". Sartre empalideceu de emoção diante da frase. Era exatamente o que ambicionava havia anos: falar das coisas como as tocava..." (SARTRE. A Idade da Razão. Rio de Janeiro: Nova Cultural, 1996)

Explico:

Certo dia, eu, Fran e nossa amiga Vero “do Recife” fomos tomar um café antes do cinema, na Rua Augusta. Subitamente, Fran pulou da cadeira:

- Vamos, minha gente, a sessão vai começar, estamos super atrasados!"

Apaulistanou, amigo? Não exitei em provocá-lo:

- Fran, por que tanta pressa? Que tal olhar para este suco de laranja e pensar: isto é só um suco de laranja?!

Desde então, Fran não perde a oportunidade de fazer piada, criou uma caricatura dessa situação, a que ele chama de experiência conceitual.

Bons tempos...


Foto: Brassaï [Jean Paul Sartre no Café de Flore, 1944].

4.7.09

Lar, labor e lazer

“Para o autor [Oldenburg], há três tipos de lugares que são importantes na vida de um individuo. O lar, que consiste em um primeiro lugar, onde está a familia, o trabalho, que é o segundo lugar, e os parques, pubs e espaços de lazer, que consistem nos terceiros lugares, aqueles onde os inidviduos vão para construir laços sociais.” (Recuero, 2009: 136)

9.6.09

Ainda sobre o tempo

Alan Ligthman, em "Os Sonhos de Einstein":

“Numa pequena biblioteca da escola politécnica de Zurique, um rapaz e seu orientador estão discutindo o trabalho de doutoramento do rapaz. É dezembro, e o fogo queima na lareira sobre cuja moldura há uma prateleira de mármore branco. O jovem e seu professor estão sentados em confortáveis cadeiras de carvalho ao lado de uma mesa redonda coberta de páginas preenchidas por cálculos e mais cálculos. A pesquisa tem sido difícil. Uma vez por mês, durante os últimos dezoito meses, o jovem tem se reunido com seu professor nesta mesma sala. Ele pede orientação e esperança, estuda por mais de um mês, e volta com novas questões. O professor tem sempre lhe dado respostas. Hoje, novamente, o professor explica. Enquanto o professor está falando, o jovem olha pela janela, observa como a neve se mantém agarrada ao espruce ao lado do prédio, imagina como se virara sozinho depois que se formar. Sentado em sua cadeira, o jovem dá um passo hesitante no tempo, apenas minutos rumo ao futuro, arrepia-se com o frio e a incerteza. Recua. Muito melhor é ficar neste momento, ao lado do calor da lareira, ao lado da ajuda calorosa do orientador. Muito melhor é parar o movimento do tempo. E assim, neste dia na pequena biblioteca, o jovem estaciona. Seus amigos passam por ele, detêm-se por um instante para vê-lo parado neste momento e continuam rumo ao futuro cada qual em seu ritmo”

Sobre a ternura

Do filósofo colombiano Luis Carlos Restrepo, em "O Direito à Ternura":

“O que nos caracteriza e diferencia da inteligência artificial é a capacidade de emocionar-nos, de reconstruir o mundo e o conhecimento a partir dos laços afetivos que nos impactam.”

“Nós cidadãos ocidentais sofremos uma terrível deformação, um pavoroso empobrecimento histórico que nos levou a um nível jamais conhecido de analfabetismo afetivo. Sabemos do A, do B e do C; sabemos do 1, do 2 e do 8; sabemos somar, multiplicar e dividir, mas nada sabemos de nossa vida afetiva, razão pela qual continumaos exibindo grande entorpecimento em nossas relações com os outros, campo em que qualquer uma das culturas chamadas exóticas ou primitivas nos supera de longe.”

“... fazemos uma defesa exagerada da autonomia, entendida como não depender dos outros para não ver cortadas as nossas possibilidades de crescimento.”

“... continuamos destruindo a possibilidade de ternura para ver realizada as nossas ambições.”

“A caricia é uma figura que tem estrita relação com o uso do poder, podendo-se dizer que, enquanto o autoritarismo é um modelo político agarrador e ultrajante, a democracia é uma forma de carícia social onde nos abrimos à co-gestão e à práxis incerta, sem as quais é impossível construir uma verdade com o outro.”

“... os modelos hierarquicos se reproduzem nas atividades políticas e administrativas, tiranizando a vida diária.”

22.3.09

Don Quixote de la Mancha

"Resumindo, ele se enterrou tanto em seus livros que passou as noites lendo desde o crepúsculo até a alvorada e os dias desde o amanhecer até o escurecer; e então de pouco dormir e muito ler seu cérebro secou e ele perdeu o juízo. Ele preencheu sua mente com tudo o que lera nos livros com encantamentos, disputas, batalhas, desafios, ferimentos galanteios, amores, tormentos e outros disparates impossíveis; e impregnou tão profundamente sua imaginação com a crença de que todas as coisas imaginárias que lera eram reais, que... decidiu... tornar-se cavaleiro errante e viajar pelo mundo de cavalo e armadura em busca de aventuras."

26.2.09

Dormindo com um vampiro

Adriana trabalha do meu lado. Ela é a primeira personagem do “Leitor insone”, porque foi a história dela que me fez criar esta seção.

Tudo começou assim: durante dois dias seguidos, Adriana apareceu-me com os olhos vermelhos e inchados, quase uma vampira. E não é que tinha a ver com vampiros a sua expressão? É que essa moça apressada perdera as últimas noites lendo, lendo, lendo, um único livro de 400 páginas.

Refiro-me ao “Crepúsculo” (Twilight), de Stephenie Meyer, que inspirou o filme de mesmo nome, em cartaz nos cinemas, e uma série de TV nos EUA. Como se não bastasse terminar o primeiro livro da coleção (Twilight Series), Adriana ainda comprou os próximos, New Moon, Eclipse e Breaking Dawn. E passou mais algumas noites em companhia deles.

O que tanto atraiu Adriana desse jeito assim, que não largava a leitura? Preciso considerar que minha vizinha de mesa é uma figura um tanto agitada, fala rapidinho, se interessa por tudo que lhe deixem na mão ou que lhe contem (e sempre dá sua opinião sobre o que lhe contam, vale dizer). Era de se esperar que, durante a noite, ela não fosse diferente.

Vamos dizer que seus sonhos noturnos foram seguidamente traídos por uma espécie de sonambulismo literário, ou posso até chamar de meditação. Afinal, o que é a meditação, senão a arte de focar o pensamento? E não era isso que Adriana estava fazendo? Uma pessoa que conversa consigo mesma deve pensar bastante, então imagina quanto pensamento ela tinha que deixar de lado para se concentrar somente nos livros!

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Aliás, que história é essa, tão interessante para Adriana? Conta ela que é uma fábula de amor entre um vampiro e uma humana. “Você pode dizer que é água com açúcar, mas o interessante é a forma como a autora escreve sobre a impossibilidade de um amor”, defende Adriana. Vale dizer que toda a história é contada pela mocinha apaixonada, mas a autora já está providenciando um quinto livro, desta vez sob o ponto-de-vista do vampiro.

Adriana explica que os livros da série reconstroem o mito do vampiro, pois nessa saga ele não morre por qualquer coisa. A luz do sol, por exemplo, não é mortal, apenas reforça a cor reluzente da pele dos vampiros. E é óbvio que eles não querem ser percebidos no meio da multidão, por isso fogem dela como o diabo da cruz.

Bom, acho o Drácula de Bram Stocker charmosíssimo, então tendo a negar todas as outras espécies de vampiros... Mas confesso que Adriana despertou meu interesse pelos livros de Meyer, sem eu nunca ter lido nem a orelha deles.

+ Drácula de Bram, só para relembrar.

20.2.09

Leitor insone

Segundo o escritor irlandês James Joyce, o "leitor ideal" é aquele que sofre de uma "insônia ideal". Mais tarde, o italiano Umberto Eco completou: o leitor ideal, ou "leitor-modelo", é aquele que o autor tem em mente quando escreve. Tudo isso para dizer que o leitor é o personagem principal desta nossa coluna.

Vale mais esta explicação: amamos leitores que trocam o sono por uma boa leitura, ou que fazem do sonho sua forma de ler o mundo. Porém, não buscamos aqui o "leitor ideal", que interpreta tudo exatamente como o autor planeja. Os próprios escritores sabem que o leitor é um bichinho cheio de personalidade, faz o que quer e bem entende do texto. Bom, não? Afinal, que monótono seria se todo mundo pensasse igual!

Então vamos falar aqui de outra espécie de leitor, apresentado por Eco como o "leitor-empírico". Explica ele, em seu livro Seis passeios pelos bosques da ficção, que "os leitores empíricos podem ler de várias formas, e não existe lei que determine como devem ler, porque em geral utilizam o texto como um receptáculo de suas próprias paixões..."

Entendeu?

  • Se não, mande um comentário que a gente continua falando sobre esse assunto.
  • Se sim, siga em frente com nossas histórias de leitores insones, apaixonados, fabulosos!