13.1.09

Quanta flor


O que poderia estar acontecendo no jardim de Clara, que no primeiro dia do ano amanheceu cheio de flores? Alguém haveria plantado tudo durante a noite, enquanto ela sonhava? Ou as sementes que um dia semeara ali - tão velhinhas, coitadas, abafadas debaixo da terra, caladas - resolveram se manifestar em massa, de uma hora pra outra? Seria aquilo uma espécie de rebelião pós-primaveril?

Clara não sabia de nada, mas foi investigar. Examinou primeiro o girassol, pavoroso de tão grande, cheio de fiapinhos pelo caule, e nas pétalas também. O miolo, então, era macroscópico, dava para ver tudo, tudo, até contar o número de polens. Clara teve medo de ser engolida. Mas, pensando bem, o senhor girassol era simpático, não faria nada de mal. Ao contrário, refletia, cheio de si, a luz do dia, não tinha como ficar triste quem passasse por perto.

Logo ao lado, Clara mirou uma planta quieta, não sabia o nome... Tinha folhas e pétalas duras, e flutuava numa poça de água avermelhada. Era de poucos amigos, Clara então não quis nem mexer. Imagina se saísse um inseto esquisito de suas entranhas, que acumulavam pocinhas de barro? Não se atreveria!

Caminhou mais um pouco, e encontrou um cacho de orquídeas apaixonantes, matizadas branco e lilás. Delas, não teve medo, chegou bem perto para percorrer cada detalhe. Todas as flores, além de tão pequenas e cheias de minúcias, tremiam ao passar do vento, o que fazia o passeio visual de Clara ainda mais perturbador.

Fatigada, Clara, enfim, deixou-se cair na grama. Começou a calcular quanto trabalho teria para cuidar de todas aquelas criaturas.

Um comentário:

paulinho disse...

Que bom que vocês voltaram (você e Clara). Espero que não demorem mais para aparecer. Tudo de bom para você e sua família. Beijão.