15.4.09

A velocidade das coisas

As meninas falavam sem parar sobre um filme “muito engraçado”. “Será que todo mundo precisa rir das mesmas histórias?”, perguntou-se Clara, antes de se distrair completamente da conversa das amigas.

Clara estava tão irritada com o nível de detalhes da narração, que ficou enjoada. Era um sinal de que começaria a ver tudo em câmera lenta. E foi justamente o que aconteceu.

O que se seguia ao enjôo era dramático. Clara só conseguia atentar para o movimento dos lábios das pessoas. E já não prestava mais atenção no que diziam. Automaticamente, um risinho torto congelava-se em seu rosto.

Clara deslocou o olhar para a janela do trem em movimento, tentando se conter. Em seguida, mirou a rua paralela, onde os carros corriam mais lentamente do que o trem. Não via a hora de chegar, pois temia aparentar sua total distração.

Parecia ter passado uma vida, até que o trem parou. Clara fingiu que teria de descer ali mesmo, uma estação antes, com a desculpa de passar em uma livraria.

Todo esse devaneio a seguiu pelo caminho, até que algo finalmente conseguiu capturá-la. Um beija-flor, que tremulava sobre um arbusto florido. Clara forçou um olhar câmera lenta para contar o sobe-e-desce das asas. E então riu de si mesma.