24.6.09

Idéia de máscara

Quando Clara usou sua máscara pela primeira vez, sentiu-se tão confortável! Agora ninguém mais riria dela, se ficasse ruborizada. Mas o que a deixava assim, tão envergonhada? Ah! Tanta coisa... Absurdos da vida... Uma vez seus pais brigaram em plena rua, a tapas. Pessoas andavam rapidamente, mas ela tinha certeza que TODO MUNDO VIU! “Por que só agora tive essa idéia de máscara?”, cobrou-se Clara.

Relações

Dois textos meus em dois blogs de dois queridos amigos!

. Carta da leitora
. Somos cegos ao óbvio

Paulo e Bela, obrigada por compartilhar!

11.6.09

Receita de Clara

Resgate aquele monte de papel guardado, meio amarelado, rabiscado a lápis de cera. Reveja os bonecos com cabeça grande e pernas de palito que você, sim, você mesmo desenhou - criativo, desde que nasceu.

Agora pique tudo, com paixão. Isso! Mas, calma, não descarte sua infância no lixo, não. Jogue tudo num balde d'água. No dia seguinte, você obterá um caldo. Um caldo bege. Então peneire o tal, até obter uma pasta, e acrescente bastante cola Tenaz.

Foi assim que Clara fabricou sua própria máscara...

10.6.09

L'Enfant Terrible

Clara era magrela. Tinha canelas finas e pele rosada. Aliás, gostava de cor-de-rosa, no quarto, na roupa, na vida. Mas tinha pavor a ficar com a cara mais rosa do que já era. Isso acontecia quando falavam coisas estranhas, ou quando olhavam muito pra ela.

Um belo dia, Clara pediu à mãe um rosto assim, tipo bege. Uma máscara, se não tivesse outro jeito. Aí a babá falou: “menina, cuidado com o que você deseja!” Aos oito anos, ela não entendeu a bronca. Entenderia anos depois...

9.6.09

Ainda sobre o tempo

Alan Ligthman, em "Os Sonhos de Einstein":

“Numa pequena biblioteca da escola politécnica de Zurique, um rapaz e seu orientador estão discutindo o trabalho de doutoramento do rapaz. É dezembro, e o fogo queima na lareira sobre cuja moldura há uma prateleira de mármore branco. O jovem e seu professor estão sentados em confortáveis cadeiras de carvalho ao lado de uma mesa redonda coberta de páginas preenchidas por cálculos e mais cálculos. A pesquisa tem sido difícil. Uma vez por mês, durante os últimos dezoito meses, o jovem tem se reunido com seu professor nesta mesma sala. Ele pede orientação e esperança, estuda por mais de um mês, e volta com novas questões. O professor tem sempre lhe dado respostas. Hoje, novamente, o professor explica. Enquanto o professor está falando, o jovem olha pela janela, observa como a neve se mantém agarrada ao espruce ao lado do prédio, imagina como se virara sozinho depois que se formar. Sentado em sua cadeira, o jovem dá um passo hesitante no tempo, apenas minutos rumo ao futuro, arrepia-se com o frio e a incerteza. Recua. Muito melhor é ficar neste momento, ao lado do calor da lareira, ao lado da ajuda calorosa do orientador. Muito melhor é parar o movimento do tempo. E assim, neste dia na pequena biblioteca, o jovem estaciona. Seus amigos passam por ele, detêm-se por um instante para vê-lo parado neste momento e continuam rumo ao futuro cada qual em seu ritmo”

Sobre a ternura

Do filósofo colombiano Luis Carlos Restrepo, em "O Direito à Ternura":

“O que nos caracteriza e diferencia da inteligência artificial é a capacidade de emocionar-nos, de reconstruir o mundo e o conhecimento a partir dos laços afetivos que nos impactam.”

“Nós cidadãos ocidentais sofremos uma terrível deformação, um pavoroso empobrecimento histórico que nos levou a um nível jamais conhecido de analfabetismo afetivo. Sabemos do A, do B e do C; sabemos do 1, do 2 e do 8; sabemos somar, multiplicar e dividir, mas nada sabemos de nossa vida afetiva, razão pela qual continumaos exibindo grande entorpecimento em nossas relações com os outros, campo em que qualquer uma das culturas chamadas exóticas ou primitivas nos supera de longe.”

“... fazemos uma defesa exagerada da autonomia, entendida como não depender dos outros para não ver cortadas as nossas possibilidades de crescimento.”

“... continuamos destruindo a possibilidade de ternura para ver realizada as nossas ambições.”

“A caricia é uma figura que tem estrita relação com o uso do poder, podendo-se dizer que, enquanto o autoritarismo é um modelo político agarrador e ultrajante, a democracia é uma forma de carícia social onde nos abrimos à co-gestão e à práxis incerta, sem as quais é impossível construir uma verdade com o outro.”

“... os modelos hierarquicos se reproduzem nas atividades políticas e administrativas, tiranizando a vida diária.”