9.6.09

Ainda sobre o tempo

Alan Ligthman, em "Os Sonhos de Einstein":

“Numa pequena biblioteca da escola politécnica de Zurique, um rapaz e seu orientador estão discutindo o trabalho de doutoramento do rapaz. É dezembro, e o fogo queima na lareira sobre cuja moldura há uma prateleira de mármore branco. O jovem e seu professor estão sentados em confortáveis cadeiras de carvalho ao lado de uma mesa redonda coberta de páginas preenchidas por cálculos e mais cálculos. A pesquisa tem sido difícil. Uma vez por mês, durante os últimos dezoito meses, o jovem tem se reunido com seu professor nesta mesma sala. Ele pede orientação e esperança, estuda por mais de um mês, e volta com novas questões. O professor tem sempre lhe dado respostas. Hoje, novamente, o professor explica. Enquanto o professor está falando, o jovem olha pela janela, observa como a neve se mantém agarrada ao espruce ao lado do prédio, imagina como se virara sozinho depois que se formar. Sentado em sua cadeira, o jovem dá um passo hesitante no tempo, apenas minutos rumo ao futuro, arrepia-se com o frio e a incerteza. Recua. Muito melhor é ficar neste momento, ao lado do calor da lareira, ao lado da ajuda calorosa do orientador. Muito melhor é parar o movimento do tempo. E assim, neste dia na pequena biblioteca, o jovem estaciona. Seus amigos passam por ele, detêm-se por um instante para vê-lo parado neste momento e continuam rumo ao futuro cada qual em seu ritmo”

Sobre a ternura

Do filósofo colombiano Luis Carlos Restrepo, em "O Direito à Ternura":

“O que nos caracteriza e diferencia da inteligência artificial é a capacidade de emocionar-nos, de reconstruir o mundo e o conhecimento a partir dos laços afetivos que nos impactam.”

“Nós cidadãos ocidentais sofremos uma terrível deformação, um pavoroso empobrecimento histórico que nos levou a um nível jamais conhecido de analfabetismo afetivo. Sabemos do A, do B e do C; sabemos do 1, do 2 e do 8; sabemos somar, multiplicar e dividir, mas nada sabemos de nossa vida afetiva, razão pela qual continumaos exibindo grande entorpecimento em nossas relações com os outros, campo em que qualquer uma das culturas chamadas exóticas ou primitivas nos supera de longe.”

“... fazemos uma defesa exagerada da autonomia, entendida como não depender dos outros para não ver cortadas as nossas possibilidades de crescimento.”

“... continuamos destruindo a possibilidade de ternura para ver realizada as nossas ambições.”

“A caricia é uma figura que tem estrita relação com o uso do poder, podendo-se dizer que, enquanto o autoritarismo é um modelo político agarrador e ultrajante, a democracia é uma forma de carícia social onde nos abrimos à co-gestão e à práxis incerta, sem as quais é impossível construir uma verdade com o outro.”

“... os modelos hierarquicos se reproduzem nas atividades políticas e administrativas, tiranizando a vida diária.”