26.7.09

Ei, você, pode me ouvir?

Ontem falamos sobre o silêncio. Paulo contou que passara dez dias calado, em um retiro. Claudia ouvia, taciturna, a história de Paulo.

Apesar do esforço e certo fastio, Paulo sobrevivera à experiência. Soube se comunicar com gestos, sem dizer palavra, quando começou a limpar o quarto e os colegas juntaram-se voluntariamente a ele. Também soube a hora de comer, a hora de dormir. E aprendeu que palavras são desnecessárias e podem até machucar.

Difícil calar, se as pessoas não abrem mão de seus celulares. Afinal, não se pode perder mais tempo, nem na fila do cinema. Então falemos! E não basta falar, é preciso se fazer ouvir, aumentar a voz ao telefone, para que todos saibam que levamos uma vida menos ordinária.

Em nossa rede de relações, conhecemos ao menos uma criatura que nos atropela quando ainda ensaiamos abrir a boca. Mesmo calado, esse sujeito parece não prestar a mínima atenção no que dizemos.

E quem vai nos ouvir? Claudia?

22.7.09

Perguntas que me calam: Episódio no café

Você pede um expresso, estende o dinheiro, e logo começa a conversar com o amigo solidário que lhe acompanha na fila.

O caixa interrompe o papo pra perguntar:
"Mais alguma coisa?"
"Algo mais?"
"Só isso?"

= /

Suco de laranja

Acabo de ler uma passagem da vida de Sartre que me fez lembrar o meu amigo Paulo Araújo (a quem prefiro chamar de "Fran"), grande intelectual Potiguar, Secretário de Comunicação da Prefeitura de Natal e editor do blog Coluna do Francisco:

"Ao passar na capital [França], poucos meses mais tarde, Sartre e Simone de Beauvoir encontraram, em um café de Montparnasse, Raymond Aron, que voltava de Berlim, onde estudara a doutrina fenomenologista de Edmund Husserl. Simone relataria este encontro em suas memórias. Aron, no meio da conversa, enfatizou: "Está vendo, meu amigo", apontando para um copo, "se você é um fenomenologista, poderá falar deste coquetel e estará falando de filosofia". Sartre empalideceu de emoção diante da frase. Era exatamente o que ambicionava havia anos: falar das coisas como as tocava..." (SARTRE. A Idade da Razão. Rio de Janeiro: Nova Cultural, 1996)

Explico:

Certo dia, eu, Fran e nossa amiga Vero “do Recife” fomos tomar um café antes do cinema, na Rua Augusta. Subitamente, Fran pulou da cadeira:

- Vamos, minha gente, a sessão vai começar, estamos super atrasados!"

Apaulistanou, amigo? Não exitei em provocá-lo:

- Fran, por que tanta pressa? Que tal olhar para este suco de laranja e pensar: isto é só um suco de laranja?!

Desde então, Fran não perde a oportunidade de fazer piada, criou uma caricatura dessa situação, a que ele chama de experiência conceitual.

Bons tempos...


Foto: Brassaï [Jean Paul Sartre no Café de Flore, 1944].

4.7.09

Lar, labor e lazer

“Para o autor [Oldenburg], há três tipos de lugares que são importantes na vida de um individuo. O lar, que consiste em um primeiro lugar, onde está a familia, o trabalho, que é o segundo lugar, e os parques, pubs e espaços de lazer, que consistem nos terceiros lugares, aqueles onde os inidviduos vão para construir laços sociais.” (Recuero, 2009: 136)