26.7.09

Ei, você, pode me ouvir?

Ontem falamos sobre o silêncio. Paulo contou que passara dez dias calado, em um retiro. Claudia ouvia, taciturna, a história de Paulo.

Apesar do esforço e certo fastio, Paulo sobrevivera à experiência. Soube se comunicar com gestos, sem dizer palavra, quando começou a limpar o quarto e os colegas juntaram-se voluntariamente a ele. Também soube a hora de comer, a hora de dormir. E aprendeu que palavras são desnecessárias e podem até machucar.

Difícil calar, se as pessoas não abrem mão de seus celulares. Afinal, não se pode perder mais tempo, nem na fila do cinema. Então falemos! E não basta falar, é preciso se fazer ouvir, aumentar a voz ao telefone, para que todos saibam que levamos uma vida menos ordinária.

Em nossa rede de relações, conhecemos ao menos uma criatura que nos atropela quando ainda ensaiamos abrir a boca. Mesmo calado, esse sujeito parece não prestar a mínima atenção no que dizemos.

E quem vai nos ouvir? Claudia?

2 comentários:

Anderson disse...

Creio que se calar não seja uma obrigação e sim uma atitude. Não seriamos seres desenvolvidos sem pronunciar uma palavra se quer.

Vejo o silêncio, o "não falar" como uma expressão de grandeza perante ao que se passa no momento.

Mas as vezes o silêncio pode ser uma omissão.

Eu falo, logo, existo. Penso assim.

André Xavier Costa disse...

Uma das coisas que mais me impressionou (e arrisco a dizer, ainda não conheci alguém parecido) foi tua capacidade de ouvir atentamente, mesmo quando até eu não estava prestando atenção ao que eu dizia. Hoje, cada vez mais, percebo essa dispersão generalizada (talvez mais nas Urbi onde o tempo tende a passar mais rápido), e o atropelo das interlocuções. Não acho entretanto que com isso se mate o pensamento (e os sentimentos associados). Ele fica lá aguardando a sua vez.