10.8.09

A literatura e a construção das mentalidades

De manhã, enquanto esperava o trem, pensava sobre o fim das ideologias. Desafio: quem aqui defende verdades definitivas? Quem só vê o mundo com os óculos de Descartes? Ou de Marx? Ou Diogo Mainardi? E comecei a questionar por que não acredito mais em partidos políticos...

Como a gente faz uns links esquisitos quando pensa! Passou-me pela cabeça a jornalista e ex-vereadora Soninha, figura que me inspira confiança, pela sua história de vida... E que não é mais do PT, tampouco do PSDB. Na home do seu site, nem o nome do seu partido aparece. Tem estrelinhas vermelhas lá... Saudades do PT? Hum... Depois de fuçar, escarafunchar, só fui achar no seu blog a primeira citação ao PPS. E comecei a crer que talvez eu não esteja sozinha com esta dúvida: que partido tomar na vida?


Ouvi falar de um tal Paradigma da Complexidade, que seria a mais nova ciência (ou mentalidade, me soa melhor). Talvez encontre aqui uma resposta. Para começar, o "complexo" diz que somos incapazes de evitar contradições (MORIN, 2007: 68). Em palavras vulgares: não dá mais pra simplificar o mundo, vê-lo a partir de um único prisma, ser dono de uma verdade.

Agora, se estamos no olho desse furacão, como entender exatamente o que se passa? A literatura vislumbrou lá atrás o que estaria prestes a acontecer. Os artistas viram, antes dos cientistas. Em Introdução ao Pensamento Complexo, de Edgar Morin, encontrei isto aqui:

“Não se deve acreditar que a questão da complexidade só se coloque hoje em função dos novos progressos científicos. Deve-se buscar a complexidade lá onde ela parece em geral ausente, como, por exemplo, na vida cotidiana.

Essa complexidade foi recebida e descrita pelo romance do sec. XIX e início do século XX. Enquanto nessa mesma época, a ciência tenta eliminar o que é individual e singular, (...) o romance, ao contrário (Balzac na França, Dickens na Inglaterra), nos mostra seres singulares em seus contextos e em sua época. Ele mostra que a vida mais cotidiana é, de fato, uma vida onde cada um joga vários papéis sociais, conforme esteja em sua casa, no seu trabalho, com amigos ou desconhecidos. (...)

A relação ambivalente com o outro, as verdadeiras mudanças de personalidade como acontece em Dostoievski, o fato de que sejamos agarrados pela história sem saber muito como (...), o fato de que o próprio ser se transforma com o passar do tempo, como o mostram admiravelmente Em Busca do Tempo Perdido e, sobretudo, o final do Tempo Reencontrado de Proust, tudo isto indica que não é simplesmente a sociedade que é complexa, mas cada átomo do mundo humano.” (MORIN, 2007: 57-58)

2 comentários:

paulinho disse...

Eu tenho pensado um pouco sobre a complexidade do indivíduo e da sua relação com a “realidade”. Parece que as pessoas aceitam uma realidade absoluta e classificam algumas idéias como fora dessa realidade. Eu fico tentado a acreditar que realidade é o que cada um acredita, mas não no sentido romântico de liberdade do pensamento. Acho que a realidade do doente mental ou do alienado são tão “reais” quanto quaisquer outras, já que eles estão completamente inseridos nela e assim vêm a vida. Uma prova disso é a formação de “tribos” nas sociedades modernas. Quem transforma sua casa num castelo gótico vive uma outra realidade inspirada pelos sentidos. Mas quem sou eu para falar disso. São só coisas na minha cabeça.

Fernando disse...

Belo texto Roberta. Vivemos hoje a crise da ideologia com certeza, fato bastante ilustrativo no país com PSDB e PT reféns do PMDB devido a acordos nem sempre ilícitos. Realmente não sei qual é o caminho, mas aquilo que chamávamos de esquerda e direita definitivamente não existe mais. Pelo menos aqui no Brasil.