21.12.10

Uma história pra dormir, um segredo pra acordar


Neste post, que talvez seja o último do ano, sou eu mesma a personagem da coluna “Leitor Insone”. Porém, sou o contraponto, aquela que dorme, sem vergonha na cara, ao alcançar o terceiro parágrafo do livro de cabeceira. Basta a rua silenciar, que qualquer fonte de leitura, seja entediante ou visguenta, torna-se uma história de ninar em potencial .

Meu sono resiste menos ainda a um bom contador de histórias. Se és um bom contador, a história pode ser a tua, cotidiana, ou a de um livro, lido em voz alta... De qualquer jeito, me farás dormir. A menos que me contes um segredo = )

Quando eu dormir, não te sintas desprestigiado. Ao contrário, esse é um sinal de sucesso. Afinal, ao invés de que pensar tanta coisa, e nada entender, prefiro ouvir tua história e dormir e sonhar. Tua voz suave deslizará pelo ar, e essa é a sensação mais aconchegante do mundo. É como voltar ao útero materno.

Se eu mesma leio pra mim, às vezes persisto, chego a virar uma página, mas aí dá vontade de fazer uma grande traquinagem. Vou direto ao último parágrafo do livro. E leio mesmo. É que o fim não importa muito, eu acho.

Queres experimentar? Vê só o final de “O Mundo de Sofia”, que estou lendo vagarosamente pela terceira vez:

“- Um de nós vai ter de nadar até o barco.
- Vamos nós dois, papai.”

Aposto que não estraguei tua aventura, caso queiras ver “Sofia” do início ao fim. Porque cada parágrafo é uma canção, cada um com a sua revelação. E não é esse o prazer da leitura?

19.12.10

Alquimia


Química era a matéria mais difícil para Clara. A tabela periódica não entrava em sua cabeça. Bastava lembrar o fim de semana que passara tentando balancear 300 equações. O domingo já estava escuro, e nem ela, nem sua amiga Bela [fera em ciências exatas], conseguiam sair da 183ª fórmula. A essa altura, entreolharam-se e tiveram uma crise de riso, tamanho o desgaste mental.

Mas tudo mudaria com a chegada do novo professor de Química. Clara ficou encantada quando ele revelou que as formas da Natureza se repetem. Mas isso não seria assunto para o professor de Biologia? Ou Matemática? Ou seria de Filosofia?

Bom, não importa, o fato é que os pólens de um girassol formam uma espécie de espiral, com círculos de 3, 5, 8, 13, 21 pontinhos. Basta somar 3+5=8, 5+8=13, e assim por diante, para obter toda a sequência.

27.11.10

A menina que não sabia ler

Adoro quando me contam histórias. Naquela madrugada de setembro de 2010, ouvia atentamente uma história de Michelle. Se me permite, Michelle, vou recontá-la aqui. Para compartilhar com outras pessoas sua maravilhosa experiência como leitora.

Permissão dada, vamos lá: ainda bem pequena, Michelle não admitia que fosse incapaz de ler. Seu irmão trancava-se no banheiro, se quisesse ler qualquer coisa sem a intromissão da irmã. E a menininha ainda dizia para a mãe: “Você é professora, tem o dever de me ensinar”.

Lembrei-me dessa cena quando escolhi o livro “A menina que não sabia ler” para presenteá-la. Não se trata exatamente da mesma história, mas achei que Michelle pudesse gostar. Pois a leitura também é proibida a Florence, personagem do livro. Ainda que por motivos diferentes, Florence e a pequena Michelle devem compartilhar o mesmo sentimento, de quem deseja saciar sua curiosidade.

21.11.10

Causa e efeito

Como você passa o tempo, quando falta o que fazer? Clara arranca os cabelos, sentada frente à TV. Nada vê, apenas se concentra em cada fio arrancado. Quase uma meditação, não fossem os efeitos catastróficos dessa rotina, que fizera sua cabeleira crescer desalinhadamente.

Parece que assim é, como tudo na vida: uma pequena pedra que jogamos no rio pode gerar ondas estrondosas na outra margem. Quando se deu conta disso, Clara resolveu fazer algo mais construtivo pra matar o tédio.

E foi assim que começou a regar plantas, diariamente. Boninas, cravos e margaridas tremiam ao toque das gotas d'água, enquanto Clara divagava sobre o seu destino.

31.7.10

Volta às aulas – Clara ganha mais um superpoder

Clara estava grilada. Caminhava para a escola com uma fumacinha em cima da cabeça, pensando como seria chato reencontrar o povo insolente da sua turma.

Resolveu, então, fazer um caminho mais longo. Iria pelo parque, para mudar seu humor. Árvores e terra molhada ajudariam a refrescar o cérebro.

Era um dia de sol com ar fresco. Sentada num banco, Clara distraiu-se com o barulho das folhas ao vento. Embalou-se na dança das sombras e da luz refletida nos troncos das árvores. Até cair num sono leve, e perder a noção. Não sabia se estava pensando ou sonhando.

Perguntas que me calam: Números


Por que as pessoas têm tanta dificuldade para anotar um número? Tente informar seu RG ou CPF, ou até mesmo o número da sua casa. É certo: você vai ter que repetir, em alto e bom som. Se fosse o tal do Pi, eu entenderia : /

10.7.10

Superinteressante: o livro colaborativo de Bob

Acabo de abrir a Superinteressante de julho na página 41, e o que me aparece? Uma entrevista com Bob Stein, presidente do Instituto para o Futuro do Livro (EUA).

Aprovo sua ideia, de que o livro poderá virar uma espécie de fórum. Nesse modelo, cabe ao “autor” lançar tópicos, que serão discutidos pelos leitores para a criação da obra, de forma colaborativa.

Ok, já temos a Wikipedia. Mas vale conferir por que, para Bob, a escrita e a leitura não são atividades solitárias:

28.6.10

O que [estudar inglês] tem a ver com [a series of unfortunate events]?


Resolvi estudar Inglês. De novo... Sensação: todo o meu esforço para falar com fluência não foi suficiente. Shit! Listening, talking, conversation... Não sei mais o que fazer. Só sei que me recuso a voltar para a escolinha e encarar as provinhas on the table. Definitivamente, vou associar meu contato com o Inglês ao prazer... De ler um bom livro, for example.

7.6.10

Clara by Stela Mattos

Minha prima Stela (sim, a pequena Téo!) cria as historietas mais fofas que já eu vi. Para inspirá-la e motivá-la ainda mais no desenho (se é que ela precisa), enviei-lhe o livro "O Triste Fim do Menino Ostra", obra-prima do cineasta Tim Burton.

Admito que eu tinha segundas intenções. Esperta que só, ela percebeu. Bastou a gente se encontrar para que ela riscasse em poucos minutos uma Clara à la Burton. Simplesmente amei! Essa menina é demais.

E não para por aí. Tenho bem umas dez versões de Clara by Stela Mattos aqui comigo. Depois mostro as outras.

[Téo, tomei a liberdade de despentear Clara quando digitalizei a imagem, pois em algum momento vou escrever sobre esse detalhe.]

6.6.10

Onde está Clara?

Clara não sabe o que vai acontecer no próximo minuto, por isso mesmo não se preocupa com nada. Assim sobra tempo para se concentrar no presente. Só que Clara não se sente presente em lugar algum. Seu corpo está aqui e acolá. Já sua mente, parece flutuar em mil pedacinhos fora da cabeça, como se estivesse em teletransporte.

Todo dia é assim: Clara acorda, vai ao banheiro, assiste às aulas, volta pra casa, lê, vê TV até dormir... Involuntariamente. Mas é incapaz de tomar decisões que fogem da rotina. Decisões que exigem, justamente, da boa vontade da mente. “Vou ou não vou à casa de Noca? Alguém pode decidir??”

Clara, ausente, assim... Qual o motivo? Seria culpa da memória? Vontade de estar apenas onde já se esteve? Não pode ser, pois Clara tem preguiça do passado, não deve estar por lá também.

No fim da estória, não sabemos por onde anda Clara. Só sabemos que, para aquela menina, até então indiferente a tudo, estar ausente de si mesma começou a se tornar um grande incômodo. Clara não queria mais acreditar que isso era coisa de gente evoluída.

17.5.10

Imagem ou miragem?

Tia Néia era uma figura. Ou melhor, uma pintura. É que todos os dias ela pintava o rosto com tinta guache. “Volto a ser criança”. O que ela queria dizer com isso? Que a tinta rejuvenescia como um creme Pond’s? Ou tudo não passava de coisa de adulto saudoso da infância?

A tia contava que cada cor trazia um beneficio diferente para a pele. O vermelho era pra se apaixonar. O verde, pra encontrar uma solução. O amarelo, pra correr sem parar. E com o lilás, dormia-se que era uma beleza.

23.2.10

No dia em que Clara se fez de louca

Um sujeito arregala os olhos e aumenta a voz, em defesa de sua ideia inviável. A mulher protesta, chora, ergue as mãos trêmulas. Os demais, enrustidos, olham pro chão. Alguns se escondem debaixo da mesa.

Naquele dia, Clara observava com mais atenção essa cena. Era recorrente. Desenhou uma moldura imaginária em torno do drama e singelamente assistiu. Até decidir que perderia o juízo também, pra ficar na moda.

Aconteceu num impulso - lady Clara arrotou bem alto. Todos silenciaram e trocaram olhares, enquanto ela sustentava um olhar vidrado. Levantou-se, elegante e lentamente, e saiu. Como se nada tivesse acontecido.

13.1.10

Perguntas que me calam: No lotação

Por que em São Paulo a porta de saída dos ônibus fica no meio, reunindo em um único metro quadrado pessoas que passam da catraca e pessoas que querem descer?

8.1.10

Sobre a felicidade

"Charles, portanto, era feliz, sem se importar com nada deste mundo. Uma refeição a dois, um passeio à tarde pela rua principal, um afago nos cabelos, a vista do seu chapéu de palha pendurado no fecho da janela e muitas outras coisas ainda, que ele jamais suspeitara pudesse dar prazer, formavam agora a continuidade do seu bem-estar."

Madame Bovary, de Gustave Flaubert

Ilustração: