27.11.10

A menina que não sabia ler

Adoro quando me contam histórias. Naquela madrugada de setembro de 2010, ouvia atentamente uma história de Michelle. Se me permite, Michelle, vou recontá-la aqui. Para compartilhar com outras pessoas sua maravilhosa experiência como leitora.

Permissão dada, vamos lá: ainda bem pequena, Michelle não admitia que fosse incapaz de ler. Seu irmão trancava-se no banheiro, se quisesse ler qualquer coisa sem a intromissão da irmã. E a menininha ainda dizia para a mãe: “Você é professora, tem o dever de me ensinar”.

Lembrei-me dessa cena quando escolhi o livro “A menina que não sabia ler” para presenteá-la. Não se trata exatamente da mesma história, mas achei que Michelle pudesse gostar. Pois a leitura também é proibida a Florence, personagem do livro. Ainda que por motivos diferentes, Florence e a pequena Michelle devem compartilhar o mesmo sentimento, de quem deseja saciar sua curiosidade.

Hoje, como você deve supor, Michelle é leitora ávida. Usa e abusa da sua habilidade. “Quando leio um livro, imagino as cenas no decorrer do dia. A história é tão prazerosa, que fico vivenciando.” E mais: “Leio até devagar, pro livro não acabar. É como um sonho bom, que não quero interromper.”

Foi essa a experiência de Michelle quando leu o conto “Tempo da Camisolinha”, de Mario de Andrade. Ela relembra a saga do personagem, anos depois, e ainda se emociona. Conta a história de um menino em conflito familiar, que guarda uma estrela-do-mar como se fosse um amuleto da sorte. Ele é muito apegado à estrela, até encontrar um homem sofrido na rua. Ao entender que o sofrimento do homem é maior do que o seu, entrega-lhe o amuleto (em outras palavras, sua própria sorte).

Comer, rezar, amar, ler

Michelle não costuma deixar um livro pela metade. E é capaz de passar o dia inteiro lendo. O último que terminou foi “Comer, Rezar, Amar”, de Elizabeth Gilbert, sucesso unânime entre as mulheres. Como ainda não li, fico intrigada por que todas gostam. Suponho que a história traduza o sentimento de uma época. Michelle concorda, diz que também se identifica com as ansiedades da autora. “Se ela não tivesse algo relevante a dizer, não alcançaria tantas pessoas”.

Puxa, esperava que alguém criticasse o livro... Quando expressei essa provocação, Michelle confessou que ficara irritada no começo da leitura, porque a autora usa um tom muito íntimo na escrita. “É como se ela quisesse ser minha amiga. Mas como? A gente nem se conhece!” Ainda assim, a persistente leitora foi até o fim. “Aos poucos, a gente foi virando amiga”.

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