27.12.12

O retirante e o franciscano


retirante
re.ti.ran.te
adj m+f (de retirar) Que retira ou se retira.



Abri os olhos às seis da manhã e tentei focar meu olhar na luminária sobre a cama. As pálpebras pesavam, mas era hora de me retirar.

O quarto tinha paredes de reboco. Simples e acolhedor. Estava em um convento da Ordem de São Francisco - um religioso franciscano havia me oferecido abrigo no dia anterior, enquanto eu repousava de uma longa viagem, debaixo de uma árvore.

Levantei-me, desamassei a roupa com as mãos, lavei o rosto e peguei minha sacola, encostada no canto do quarto.

Antes de sair, tentei deixar tudo em ordem. Mas tudo o quê? Ali havia apenas uma cama, um travesseiro, um cobertor e uma bacia d’água sobre um banco de madeira. Bastou sacudir e estirar o lençol. Estava tudo arrumado.

Atravessei o claustro com meus sapatos na mão, para evitar qualquer barulho. Não queria incomodar. Mas o franciscano já estava acordado na cozinha do Convento, onde tomava café e observava os pássaros pela janela. Sua roupa de algodão era tão fina que parecia ter sido lavada muitas vezes.

Aproximei-me e sussurrei um “bom dia”, bem baixinho. Como não ouvi resposta, falei mais alto.

- Bom dia - respondeu o franciscano. Café?

Cocei a cabeça e resolvi aceitar. Afinal, não sou um matuto.

O homem lavou a xícara que havia usado, para então me servir.

Enquanto bebia o café, mapeei discretamente cada detalhe do lugar. Ali também havia o suficiente – apenas uma mesa, uma cadeira, uma xícara e alguns vasos com plantas.

Após o último gole, agradeci e me despedi. O franciscano desejou boa viagem e continuou admirando os pássaros.

Atravessei a porta da saída sem olhar para trás. Estava sozinho novamente, na estrada, mas levava o cheiro do café e a imagem da única xícara. Já não era mais o mesmo que descansava sob a árvore no dia anterior.

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