16.2.13

[Viagem] Roma a Madri: olhando pelo buraco da fechadura


Meus amigos me pediram para compartilhar notícias de Madri, onde passarei seis meses a trabalho. Mas tenho a impressão que diários e fotos de viagem só interessam ao viajante. Por isso, não vou fotografar pratos de comida ou dizer se tomei banho hoje. Escolhi uma única história para contar, e em torno dela meu dia a dia pode se tornar menos ordinário para a humanidade.

Para isso, preciso voltar um pouco ao passado. Vamos lá:

Quando estava programando minhas férias para maio de 2012, uma companheira de trabalho, a Rose (que aliás também está em Madri), ofereceu-me uma ajuda pra visitar os pontos turísticos de Roma. Ela marcou tudo bonitinho no mapa estendido sobre a mesa, e me disse “Este lugar você não pode perder”, apontando para a Piazza dei Cavalieri di Malta.

Segundo Rose, lá eu encontraria um buraco. Sim, um buraco, que eu deveria mirar para ter uma revelação. Algumas pessoas poderiam pensar “E daí?”. Necessário dizer que eu incluí essa dica como ponto de visitação obrigatória?

Já em Roma, com minha prima e companheira Paula, rumamos ao buraco. Era nosso terceiro dia na cidade, e ela não aguentava mais me ouvir dizer “precisamos ir ao buraco”! Fomos caminhando e desfrutando as belezas do caminho. Entre elas, um rosário maravilhoso, que nos absorveu por horas ou minutos, não sei dizer. Afinal, os viajantes perdem a noção de tempo (sempre desconfiei que o tempo fosse relativo).

Quando chegamos na tal Piazza, deparamos com uma vista incrível da cidade. Entramos numa espécie de transe estético, e ali ficamos mais um tempo, sem noção. As árvores balançavam como em câmera lenta. O cheiro era de mel. A luz era de sonho. Estávamos vivas?

...

Mas cadê o buraco? Continuamos flanando pelo ambiente, e pensando que talvez o buraco tivesse sido um mero pretexto pra chegar a um lugar tão maravilhoso.

Até que vimos algumas pessoas em fila, e a primeira delas estava com o olho colado na fechadura de uma grande porta de madeira. Será que é o buraco? Nos metemos naquele burburinho para xeretar.

Bom, a descrição não chega aos pés da visão que tivemos através do buraco: a cúpula da igreja de São Pedro, a quilômetros de distància dali, estava milimetricamente encaixada na fechadura da porta, que funcionava como um telescópio.

Pra completar, por trás dessa porta, alguém construiu um caminho entre as plantas, que desemboca justamente na cúpula. Tudo planejado para nos encantar? E quem foi o autor dessa peripécia? Só sabemos que a porta faz parte de um edifício da Ordem dos Cavaleiros de Malta, que é representada por aquela cruz de pontas largas. Saímos de lá flutuando.

Estava certa de que não há como ficar deprimido em lugares belos. E matutei: por que será que a beleza nos inebria de tal forma?

Dali pra frente, a cruz de malta aparecia por todos os lados em nossa viagem. Ou melhor, nós é que ficamos fixadas na imagem, que passou a simbolizar aquela experiência incrível. Daí começamos a buscar a história dos Cavaleiros de Malta.

Tudo isso para dizer que pretendo iniciar essa pesquisa aqui, nesta viagem pela Espanha. Afinal, nada melhor do que estar na terra do mais famoso cavaleiro da literatura – o Quixote – para ler sobre o assunto.

Hasta luego!