19.3.13

[#voupramadri] Os alquimistas de Marrakesh

com.pa.nhei.ro
sm (baixo-lat companariu) 1 Aquele que acompanha. 2 Colega, condiscípulo. 3 Camarada. 

Esta é uma história sobre companheiros. Daqueles que aprendem juntos, que acompanham, assim como Chanço Panza e Dom Quixote em suas andanças.

Fui à Marrakesh (capital do Marrocos) com Rosi, Chris, Moni e Fer. Apesar de conhecê-los há pouco tempo, me atrevo a dizer que nossa viagem nos tornou companheiros. Primeiro, porque ficamos todos no mesmo quarto do “riad” (pousada) Fantasia. Segundo, porque tivemos papos pra lá de profundos, entre os mil e um momentos de conversa fiada, cantoria e risada boba. Terceiro, porque Marrakesh é um lugar mágico.

Sim, tão mágico que, logo no nosso primeiro passeio, entramos no lugar mais incrível da cidade: nada mais, nada menos do que uma farmácia, a Sahara Herboriste.

Fomos atraídos pelos montinhos coloridos de ervas e sementes em pó que ficavam na entrada. Logo apareceu Rachid para nos cumprimentar, enquanto seu companheiro Abdellah atendia outra pessoa.

Entre as centenas de coisinhas expostas em cestos e prateleiras, perguntamos qual seria a função de uma peça de cerâmica que parecia uma tampinha, mas estava ali solta, não tampava nada. Rachid explicou que aquilo era um “batón”. Traduzindo: ao passar o dedo úmido nas bordas da tampa, a cerâmica vira uma pasta vermelha, que as mulheres marroquinas usam pra pintar a boca. Eis o batom!

Essa foi só a primeira alquimia que presenciamos ali. Rachid nos convidou a entrar e mergulhamos no encanto das prateleiras, cheias de ervas, pós, líquidos e... Argan, a semente mais pop do Marrocos.

Abdellah juntou-se a Rachid e nos explicou que a semente de Argan é colhida depois que as cabras comem o seu fruto. A partir da semente, fabrica-se então um azeite (o Argan Oil) usado tanto na culinária, como na cosmética, para fazer o cabelo brilhar. O produto movimenta a economia local, inclusive gerando emprego para mulheres, organizadas em cooperativas.

O que importa é o caminho, e não a chegada

O Argan Oil custa tão caro no Brasil que resolvemos comprar. Além disso, não se pode confiar na procedência, pois os revendedores costumam diluir o produto em água, para que renda mais. Ali o negócio seria diferente, pois Rachid e Abdellah insistiram que acompanhássemos tudo. Assim teríamos a certeza de que levíamos um produto de qualidade.

Vale dizer que os marroquinos são mestres na arte da negociação. Nos orientaram a levar qualquer coisa por um terço do valor estipulado. Então começamos a pechinchar com Rachid e Abdellah. Mas desde o primeiro momento não achei que eles estivessem trapaceando. Tanto que o Argan seria moído e transformado em óleo na nossa frente.

E valeu muito a pena acompanhar tudo. Rachid moeu as sementes, depois amassou tudo, e ainda nos fez participar do processo, incluindo os pouquinhos de água na bacia. As mãos fortes de Rachid foram transformando as sementes em um líquido amarelado e fosco, depois cada vez mais transparente.

Isso durou preciosos minutos, que me fizeram perceber o quanto Rachid estava se esforçando, e o quanto aquilo tornava seu trabalho tão rico e sem preço. Rachid ali, ajoelhado ao chão, e Abdellah ao seu lado, ajudando-o a envasar o produto final, foi a cena mais bonita que vi em Marrakesh.

Mais comovida fiquei quando Abdellah agradeceu por termos ficado. Naquele momento, vi claramente o valor das “pequenas grandes coisas”, do tempo que dedicamos a algo e do trabalho em seu sentido mais nobre. Quero dizer, Rachid e Abdellah não poderiam ter outra profissão senão aquela, que vem da alma, seguindo os ensinamentos dos pais e da cultura marroquina.

Resultado: levamos não só o óleo, como também barras de perfume de jasmin, batons de cerâmica, lápis-lazúli para pintar os olhos (pedra usada durante séculos como maquiagem cara e luxuosa no Egito), cristais para inalação (que cheiram a Vicky Vaporube), pó de gengibre para fazer chá... E ainda voltamos mais duas vezes à farmácia, nos dois dias que ficamos por lá, para tomar chá ou simplesmente conversar com o Cosme e o Damião de Marrakesh.

Agradeço a Rachid e Abdellah. Além de tudo isso, eles me mostraram ainda mais: que são companheiros na estrada da vida, e assim se fortalecem. Como eu, Rosi, Chris, Moni e Fer :)



4 comentários:

Renata Pinto disse...

Sensacional!!!!!
Consegui enxergar todas as cenas...

Jamille disse...

Linda história, amiga... Aproveite cada minutinho desta vivência! Bjs e saudades.

Unknown disse...

Assim como Beta, Kila, Nanda e Nau, companheiras na estrada da vida. E eu (Nanda) e Nau, grandes companheiras na profissão farmacêutica (diria que Rachid e Abdellah do Brasil). Lindo texto Beta, como todos que você escreve. Sou sua fã. Bjs e saudades...

Christian Zambra disse...

A arte de observar os detalhes e extrair deles a essencia das coisas é magnifica. Que bom que tivemos uma artista como você conosco, capaz de eternizar momentos como estes, gestos, sentimentos e sensações como estas... pensamentos que realmente contribuem com o nosso ser.