24.8.15

Perguntas e respostas

Era um casal curioso. Ele tinha muitas certezas e ela, muitas dúvidas. Por isso se davam tão bem.

Se ela perguntasse qualquer coisa, ele consultava seu computador mental à procura de uma explicação razoável para as dúvidas dela.

- O que são estas manchas?

- Só uma alergia de contato.

- Mas como você sabe?

- Minha intuição.

Ele a tranquilizava com suas respostas tiradas de não sei onde. Ou ele era muito imaginativo, ou muito otimista, ou não se preocupava com nada.

Raramente ele não sabia bem o que responder, mas improvisava:

- Se está fazendo tanto calor, por que não tem uma nuvem no céu? Para onde vai a água que é evaporada?

- Bom, água é um artigo em falta, mas você tem razão, alguma água deveria estar no céu.

E assim filosofavam juntos, enquanto ele dirigia e ela admirava a paisagem.

Mesmo quando era ele quem perguntava primeiro, ela dava um jeito de lançar um porquê no final:

- Seus avós têm quantos anos?

- Na faixa dos 90. Por quê?

- Curiosidade.

-  Eu sei no que você está pensando. Na idade dos seus pais. Quer compará-la com a dos meus avós.

- É, estava pensando nisso...

Ficaram melancólicos. Mas sorriram com a certeza de que teriam a companhia do outro para a vida toda.

4.2.15

Tensões pré parto

- Filho, bora nascer?
- Só se tiver água!
Para contextualizar: estou grávida de Vinicius faz 39 semanas e 4 dias. Hoje me inspirei a contar um pouco sobre essa experiência, tentando fugir de dicas ou receitas prontas que pregam o comportamento ideal da boa mãe:

Tensões pré parto, parte 1

Já estou de licença, esperando, esperando... por um parto normal que não sei se vai acontecer. Cansada de ficar em casa, fui à praça aqui perto. Levei o iPad para retomar a leitura do livro “O Tao da Física”, abandonado pela metade faz tempo. Apesar de me sentir desconcentrada ultimamente, consegui viajar pela história da Física, contada no primeiro capítulo.

Até que fui interrompida por um senhor, admirado pelo meu iPad. Na verdade, ele não tinha muito o que fazer e queria puxar conversa. Perguntou o que eu lia, o que foi suficiente para que ele começasse a falar sem parar sobre Física e coisas da vida.

Admito que dei atenção, mas foi por educação. Só consegui me desvencilhar da conversa uns 20 minutos depois. Ele se despediu com um “a gente se vê por aqui”.

Quando contei ao meu marido como foi meu dia, ele desaprovou o papo frouxo que rolou com o senhor da praça. De pai de Vinicius, ele virou meu pai e determinou “Não fale com estranhos! Ainda mais grávida e com um iPad na mão!”.

Volto ou não à praça amanhã? São tantas dúvidas ultimamente, que acabei ficando em casa. Um programa a menos pra fazer antes de parir...

Tensões pré parto, parte 2

Sai pra comprar umas flores no supermercado que fica a 20 passos do meu prédio. Queria colocar umas violetas na janela, aproveitando que a faxineira estava limpando a casa para a chegada do bebê. Na volta, peguei o elevador rumo ao quinto andar.

No caminho, o elevador travou, não subia nem descia. E o alarme não funcionava, então liguei para a portaria: “Tô grávida e presa no elevador”. Ou seja, "corrão"!

O porteiro falou que chamaria o técnico. Depois de 10 minutos, nada... Comecei a me abanar com a nota fiscal do supermercado. Acho que ele viu minha cara de pânico pela câmera e interfonou pra mim. Disse que o técnico estava consertando um outro elevador, mas já já apareceria...

15 minutos e ele abriu a porta pelo quinto andar. Assim pude ver que o elevador estava parado entre a parede e a saída. Eu teria que escalar a parede pra sair! Não dá! Então ele subiu no teto e fez o elevador descer até o térreo.

Cheguei em casa pelo outro elevador, conformada com a situação, que ao menos serviu pra testar meu auto controle gravídico.

Tensões pré parto, parte 3

Há meses, meu belo marido havia pintado uma parede da casa de cinza e manchado o teto. Hoje, justo hoje, na semana 39, ele resolveu terminar a tarefa (traduzindo: disfarçar a meleca com umas pinceladas nervosas de branco).

Quando olhei pro lado, ele já estava em cima da escada com um pincel e uma lata de tinta. Perguntei que tinta era aquela, ele resmungou. Então levantei pra checar, sempre exercendo meu papel de fiscal do lar. “Isso é tinta pra pintar porta, quirido!”

Ele resmungou de novo e começou a abrir todas as latas de tinta que temos aqui. Como não encontrou nenhuma branca e nenhuma para parede, desceu da escada e voltou pro sofá, entre frustrado e puto.

Sim, ele também está grávido.